grupo de pesquisa

Orientandos Mestrado:

 

1. Pascoal Farinaccio – “Serafim Ponte Grande: estrutura literária e dimensões ideológicas”,
FAPESP, defesa realizada em 14 setembro 1999.

2. Sheila Maria Carvalho – “Manuel Bandeira, cronista. Edição anotada e comentada da crônica  inédita em livro”,
FAPESP.

3. Mirhiane Mendes de Abreu – A crítica de Ronald de Carvalho (FAPESP)

4. Danilo de Oliveira Nascimento – “O Ateneu como romance de formação”,
CNPq, defesa realizada em 23 março de 2000.

5. Adriana Silveira – “Solos geniosos de épocas turbulentas: crônicas de Alcântara Machado”,
defesa realizada em 28 setembro de 2001.

6. Marcela Ferrara – “A poesia de Gilka Machado”,
CNPq. Defesa realizada em Setembro/2002.

7. Antonio Carlos Costa – “Jorge de  Lima, crítico literário”.
Ed. Anotada e comentada da crítica inédita em livro.

8. Renato Lima Jr.  “Severiano de Resende: uma biografia intelectual”.
CNPq, defesa em 25/02/2002

9. Ricardo Lísias – “Drummond cronista”,
FAPESP, defesa realizada em março de 2001

10. Monalisa Ferreira – Estudo da revista modernista A Luva,
Defesa realizada em março de 2003.

11. Carolina Duarte – A função da escrita em Angústia de G. Ramos, FAPESP,
Exame de qualificação realizado em outubro de 2004.

12. Renata Kadron “Serafim Ponte Grande e a Renovação do Romance”

13. Roberta Fabron Ramos – “Oswald de Andrade e o Verde-Amarelismo: uma leitura da coluna Feira das Quintas”. CNPq

14. José Leonardo Sousa Buzelli – Episódios da Vida do Major Quaresma – as três vidas dum Triste Fim “. CNPq

 

Orientandos Doutorado:

 

1. Roberval Pereira – “Campos de Carvalho: o desertor no deserto”.
PICD, defesa realizada em 06 abril de 2000.

2. Mirhiane Mendes de Abreu – “Notas de rodapé: um toque de verossimilhança aos romances indianistas alencarianos”,
FAPESP. Defesa realizada em Outubro/2002.

3. Eloesio Paulo dos Reis – “A loucura como alegoria em três romances dos anos 70”,
FAPESP. Defesa realizada em fevereiro de 2004.

4. Pascoal Farinaccio – “A questão da representação e o romance brasileiro contemporâneo”.
FAPESP. Defesa realizada em abril de 2004.

5. Antonia Maria Nunes “Manuel Bandeira, gênese e memória: revelação de uma poética”. CNPq. Exame de qualificação realizado em abril de 2004.

6. Sebastião Marques – “A construção dos personagens na Trilogia do Exílio de Oswald de Andrade”.

7. Lúcio Júnior – “A trilogia de Plínio Salgado e o Marco Zero de Oswald”. Em andamento. Defesa realizada em abril de 2004.

8. Benilton Lobato Cruz . “Expressionismo alemão e a poesia do modernismo. Iniciada em 2006

 

 

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A luta da posse contra a propriedade

A investida contra o modelo patriarcal de sociedade sustentado na propriedade de objetos e de bens culturais cunhou toda a obra de Oswald de Andrade. Na década de 20, pesquisando sugestões para um novo sistema, Oswald estabeleceu pilares diferentes: Estado sem classes, direito materno, abolição da propriedade privada. Pregou em tom de Manifesto o desejo de volta a uma espécie de Idade de Ouro, o Matriarcado de Pindorama (“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”./ “Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários”). Antes, consolidara com a poesia paubrasil e a prosa de João Miramar um processo de criação peculiar e à primeira vista pobre, porque centrado na incorporação de material já pronto e trabalhado (“A riqueza dos bailes e das frases feitas”).1 Na trilha das manifestações da Vanguarda estética do início do século, engajou-se na denúncia e na critica ao mito da propriedade, radicalizando os exercícios de experimentação estética, de renovação da linguagem e os processos de transgressão da dinâmica constitutiva da obra de arte. O trabalho com a linguagem (por exemplo, a prática da colagem, da citação, o recurso à paródia, ao cômico e ao trocadilho) particularmente desmistificou o conceito de propriedade da tradição cultural, ao tratá-la como uma brincadeira, melhor dizendo, como um jogo. 2 A anarquia brincalhona do lúdico serviu de meio de divulgação por excelência de suas novas idéias e de instrumento de discussão da relação posse-propriedade.

l Em “Marco Zero de Andrade” (O Estado de S. Paulo, 24 out. 1964, Supl. Lit.), D. Pignatari observou que a poesia de Oswald é a “poesia da posse contra propriedade”, em virtude de incorporação de elementos da vida cotidiana da época e do despojamento da construção.
2 A realização deste texto foi fundada na leitura do trabalho de F. Masini, Dialettica dell’avanguardia, Bari, 1973.

Na fase histórica do Modernismo essa crítica emergiu no plano conceitual, muito de passagem em trechos da Revista de Antropofagia (“0 Brasil é um grilo de seis milhões de km quadrados talhados…” / “A posse contra a propriedade”); informalmente, no corpo da revista o assunto voltou à baila por meio de aforismas ou através de citações do tipo: “A nossa teoria da posse contra a propriedade. O contato com o título morto. O grilo”. Prioritária naquele momento do debate foi a dessacralização do objeto artístico e do seu modo de concebê-lo, daí a insistência na paródia-colagem que se constituíra em módulo construtor da poesia pau-brasil e da dupla Miramar-Serafim.
É bem verdade que a manifestação do social na produção oswaldiana percorreu etapas surpreendentemente diferentes. A estratégia da fase agitada do Modernismo optou por dar ênfase à subversão estética, mas de qualquer modo o questionamento da arte oficial andou de mãos dadas com a insatisfação pelo sistema dominante. A partir do período pau-brasil, Oswald reivindicou a incorporação dos elementos rústicos e aparentemente pobres, como primeiro passo para se criar uma arte nacional (“A cozinha, o vatapá, a dança. O carnaval, o sertão e a favela”). Recomendou a pesquisa desses elementos simples como fonte de inspiração, buscando sugestões de trabalho na pobreza de expressão, na “inocência construtiva” do índio, do negro, da criança, do homem comum, frisando simultaneamente com grande tato o lado social da pobreza (“Os casebres de açafrão e de ocre no verde da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”). Na década de 40, retomou a elaboração de programas esboçados anteriormente na fase da Antropofagia, pretendendo consolidar a outra faceta do seu projeto: a cultural. Dedicou-se à produção de ensaios, teses, pensando em desenvolver de forma sistematizada o que antes fora ludicamente trabalhado, misturando, agora, lances de abordagem de cunho filosófico, sociológico e antropológico. Discutiu com maior profundidade temas variados, tais como a interiorização da literatura, a formação do mundo patriarcal, a exploração capitalista e sobretudo a relação posse-propriedade. Apoiado em vasta e heterogênea bibliografia de pensadores clássicos viu no Capitalismo a melhor parte da nação condenada à pobreza e ao excesso de trabalho. Apostou em um sistema calcado na “economia do ser”, caracterizado pelo equilíbrio social, adotando como regra de sobrevivência o serviço prestado e o beneficio retribuído. Ao contrário da “economia do haver”, no seu entender tão bem desmoralizada por Marx, vigoraria na “economia do ser” a distribuição imediata e equânime dos bens adquiridos ou conquistados. Nessa economia matriarcal vislumbrou novos elementos positivos, principalmente o “sentimento do outro, de ver-se o outro em si”. Simplificando, um aguçado senso de solidariedade que preferiu chamar de “alteridade”.
A referência direta aos pobres na obra de Oswald de Andrade aflorou com maior evidência na discussão da relação posse-propriedade. Assim acontecera na Revista de Antropofagia, quando se falou dos elementos marginais da sociedade, e em A Revolução Melancólica de forma ampliada, sobretudo no primeiro capítulo. A partir do seu engajamento político-partidário, começara a elaborar mais concretamente as idéias e conceitos dos seus projetos, sem conseguir, no entanto, imprimir a este discurso a alegria e o humor de antes. O combate de Oswald à noção de propriedade, em termos estéticos mudou de tom, para não dizer que arrefeceu um pouco, se compararmos a revista e os dois volumes de Marco Zero (A Revolução Melancólica e Chão). É que nas produções da década de 20 ocorrera a combinação perfeita do jogo de linguagem e conceitos resultando na harmoniosa vivacidade do discurso. Depois de 30, embora permanecessem o deboche e a ironia (O Rei da Vela) sobressaiu muito mais o malabarismo dos argumentos expresso num jogo maneirista, às vezes, de linguagem comportada e convencional.
Oswald era de opinião que o homem na sociedade burguesa significava a relação com sua propriedade, sendo assim pretendeu traçar um quadro humano a partir da concepção de indivíduo fabricado e dominado com base no seu objeto, admitindo a posse como uma relação 3 (“A família requer a propriedade e vice-versa. Quem não tem propriedades deve ter prole…” / “Esse homem possuía uma casinha. Tinha o direito de ter família. Perdeu a casa. Cavasse prole.” – O Rei da Vela). No primeiro capítulo – “A posse contra a propriedade” – de A Revolução Melancólica a narrativa foi montada a partir da idéia estrutural do pensamento de Oswald: a eliminação da propriedade e a instituição da posse. A camada da sociedade economicamente menos afortunada foi manuseado para articular os fios da matéria ficcional e ajudar a descrever as peculiaridades do Capitalismo transplantado para o Brasil.

3 No seu ensaio Masini realiza uma análise interessante sobre esses problemas no escritor alemão C. Einstein (ver indicação anterior, pp. 17-86).

Estava em jogo, na passagem em questão, a disputa entre aqueles que falsificaram o título de propriedade (“essas terras que o Majó diz que é dele mas non é”) e os posseiros ou colonos que queriam a terra para produzir (“os disputadores da terra contra os senhores que tinham o papel selado com o selo do império”).
Com olhos livres para ver o mundo sob novos ângulos, como proclamava seu primeiro Manifesto, os elementos socialmente desassistidos foram focalizados de forma peculiar. Basta que se tome como referência aquele capítulo Marco Zero. Combinando teorias de Marx, Nietzsche e Freud, apresentou a classe explorada num contexto incomum sem repetir os esquemas costumeiros da chamada literatura social. Os exploradores, atuando como pano de fundo para o debate de outros problemas, figuraram como atores de uma peça com papel aparentemente secundário, às vezes dominaram a estória. Em contrapartida a tentativa de espelhar o linguajar estropiado do colono, do imigrante analfabeto, não foi de todo bem-sucedida; terminou deslocado, artificial; em determinados momentos, os tipos humanos pareceram moldados com a capa do exótico e do pitoresco. Mas dentro da perspectiva de traçar o “epitáfio de um ciclo” – o dos barões do café – a construção aprofundada dos personagens individualmente estava descartada, importava privilegiar o aspecto documentário. A estatura dos personagens seria criada a partir da visão fragmentária e às vezes dispersa do conjunto, somando-se os traços mais mercantes de cada um.
Ao lado do pobre do interior do “fim de linha e fim de mundo”, Oswald utilizou-se de um elenco diversificado na galeria menos beneficiada da sociedade – o colono imigrante, o índio em decadência, o velho abandonado, a mulher, o operário urbano – a fim de engrossar o enredo. O posseiro, propositadamente abandonado, sem condições de administrar sequer a sua colheita (Elesbão) foi também pinçado por Oswald de Andrade com o objetivo de exemplificar as conseqüências da exploração organizada da burguesia (“Tudo às ordens do imperialismo estrangeiro”). Por sinal, foi novidade na sua obra de ficção o interesse pelo mundo rural. Marco Zero, fundamentalmente o primeiro volume, supriu essa lacuna alternando uma panorâmica dos costumes e ambientes daquele universo com o mundo urbano; trouxe a curiosidade pelo interior, o que aliás foi a tônica dominante nos ensaios da década de 40. Apesar do capitulo em questão servir de pretexto para introduzir o tema do livro – a burguesia paulista e suas insurreições nos meandros da narrativa maior armou-se uma outra estória: a da relação de dominação mantida pelo sistema patriarcal e pelo seu sustentáculo mor – a propriedade (“0 Majó tem chão demais e não aproveita. E inda quê tirá tudo dos possero”). Enriqueceu portanto a trama da narrativa abordando assunto considerado detonador de todas as animosidades e desajustes sociais.
Se Oswald desviou um pouco do caminho alegre aberto com Miramar e Serafim quando contribuiu para criar uma prosa experimental, inventiva, bem-humorada, na literatura brasileira moderna, não descuidou do trabalho com a linguagem. Propiciou em muitos trechos de A Revolução Melancólica e especialmente nessa primeira parte exemplos de um estilo dinâmico e engraçado. Na descrição do espaço da narrativa, conseguiu habilmente jogar com diferentes recursos estilísticos e sintetizar com acuidade a idéia, lançando mão da economia de adjetivos (“As estantes coloriam-se de fazendas” / “Na segunda classe desiluminada, com escarros, fumaças e conversas” / “Deus empinava um papagaio de luz – O Cruzeiro do Sul” / “Saíram na noite asmática do Brás”). Embora fique patente o comedimento da montagem estrutural desse livro em vista da radicalidade das inovações da sua obra anterior, várias passagens e motivos não nos deixam esquecer o seu pulso de criador. E o comportamento na descrição do ambiente se repete na configuração dos personagens (“perfil de abutre” / “um velho brônzeo, em farrapos, à janela aberta para o azul” / “0 camarada Fabrício, baixo e calvo, esperava-o ao lado de um proletário típico, magro e chupado apesar de moço” / “Ela olhou o sanfonista sorrindo num dente, cobreada no vestido amarelo”). A caracterização concisa e direta esteve sempre intimamente imbricado no relato. Pedrão ao entrar em cena dialogava com Miguelona sobre as disputas de terra na região; a notícia de seu assassinato, divulgado tão violenta e bruscamente como as condições de sua morte, nivelou apenas com uma frase o fato e a forma de sua comunicação: “Um tiro vindo da baixada estalou na moita de bananeiras”. A exemplo da sua produção inicial (Os Condenados) a linguagem cinematográfica foi a construção preferida. Neste capítulo em particular, seu jogo predileto resultou nos cortes bruscos das cenas, levando o Autor a abandonar com maestria a velha noção de estrutura romanesca com princípio, meio e fim: as pequenas cenas assumiram vida própria. Afortunadamente foi o exemplo de “técnica miudinha” que deu certo. Pois, em outros trechos este mesmo processo de “composição em retalhos”, mudando, de relance, de um pólo a outro da estória deixou o leitor confuso. 4
Diferente do geral produzido pela conhecida literatura social, quase sempre idealizando e mitificando o pobre, Oswald mostrou-o cruamente multifacetado. Retratou-o como corajoso, valente e resistente às opressões (“Defende a terra, Pedrão!” / “0 capilar empregado aqui não se perde. Prefiro sai aos pedaços…”); protestando contra os dominadores e os seus comparsas, nos momentos de desconfiança em relação à honestidade da justiça e da polícia, duas instituições mostradas em Marco Zero, agindo de forma subreptícia e parcial (“Aqui é a poliça que juda robá” / “Ocês só serve prá dá o dobro do capilar pros capitalista! ” / “Mas estas terras que eu trabaio e que passei iscritura não pode cai nas unhas do Majó” / “Um guarda interpusera-se empurrando a Miguelona”). Outras vezes deixou às claras a ingenuidade e ignorância do homem simples tornando-o mais facilmente vulnerável à exploração da burguesia. Não esqueceu de hiperbolizar essa situação, focalizando de modo caricaturam as informações desconexas sobre notícias de mundos diferentes e promissores que martelavam na cabeça confusa do colono ou operário semi-analfabeto. Exemplo típico foi o diálogo entre o índio Belarmino e Elesbão, ambos com a terra perdida para outro mais sabido: “Mecê sabe pra que lado fica a Rússia? – Não sei. Só se é pras bandas da Cananéia… Diz que na Rússia tão dando terra pros trabaiadô…”
Também não foi descartada a relação dicotômica habitual burguesia expoliadora e massa sofrida -, aproveitando a ocasião para introduzir naquele contexto as subcamadas: dominador e dominado. No âmbito do colono imigrante, protestos pela má assistência e pela ação organizada do imigrante bem assistido como parece ser o caso dos japoneses, malvistos pelos seus companheiros não tão bem-sucedidos: “Trabaiei. Carpi mais de duzentos pé. Japoneis num quis me pagã” / “Japoneis chegava também pelo mar, percorrera as mesma estradas penosas e desertas, Mas trazia a cooperação e o dumping” / “0 japonês tirava a terra do caboclo, cercava os núcleos agonizantes do trabalho nacional”.
Talvez, como lembrou Antonio Candido, perdure em Marco Zero o mesmo tom dos dois romances anteriores (Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande) de enorme impacto e sucesso: afoiteza e superficialidade no trabalho dos temas e personagens.

4 Estas idéias estão no ensaio “Estouro e Libertação” de Antonio Candido (Vários Escritos, São Paulo, 1970, pp. 33-50).

Mas com certeza, em ambas as etapas da ficção oswaldiana sobressaíram acima de tudo traços inquietantes e inovadores: na primeira, o tão decantado ludismo da construção perturbadoramente desconcertante; na segunda, a matéria ficcional propriamente dita – tentativa nova de realizar um “panorama da erosão da sociedade burguesa” paulista, onde a camada explorada não apenas ilustrou o antagonismo social do panorama, mas foi presença marcante na composição da prosa de Oswald de Andrade e fundamentou a abordagem da relação posse-propriedade.

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Oswald e a prática política

Oswald e a prática política


Oswald e Tarsila a bordo do Massília

Escritores famosos, de várias nacionalidades, devotaram grande simpatia aos movimentos libertários. O espírito de ruptura desses movimentos atraiu sobretudo os artistas envolvidos com propostas de renovação estética radical. A primeira vista, parece impertinente apresentar, em um número especial dedicado ao Anarquismo, um texto sobre Oswald de Andrade. Mas para este escritor, os pensadores anarquistas revelaram a possibilidade de aliar a aspiração por um ideal mais humano com sua pesquisa pela liberdade de formas e estilo. Além disso, Oswald se afinou com as manifestações libertarias, da mesma forma que as vanguardas procuraram seguir à risca a lição de Proudhon, fazendo da arte o símbolo do dinamismo, do pode recriador de cada sociedade. Ao publicar em 1925 Pau Brasil, desconcertou os modernistas mais atuantes com o aproveitamento de materiais poéticos inusitados e uma proposta radical de depuramento da linguagem, que pôs abaixo os padrões vigentes de poesia; no âmbito da prosa, com Miramar e Serafim, desarticulou modernamente a estrutura da narrativa; O rei da vela inaugurou no Brasil a dramaturgia de vanguarda. Mas ao contribuir para destruir a velha ordem estética, retratou o mundo provinciano e burguês da sua época. A camada oprimida e pobre da sociedade – operários, camponeses e marginais – teve a sua chance apenas em Marco Zero. E mesmo assim, apareceu como cenário para o romancista historiar a decadência da burguesia paulista.
Já se explorou bastante o dandismo da personalidade oswaldiana. Todavia, permanecem desconhecidas outras facetas dessa personalidade plural e instável. No primeiro volume das Memórias 1. Oswald mencionou suas ligações com intelectuais anarquistas e confessou sua admiração pelos teóricos libertários ou por manifestações ligadas a este movimento. Freqüentou a mesma roda de intelectuais em torno do poeta Ricardo Gonçalves e do líder anarquista italiano Oreste Ristori. Foi também muito amigo de outro escritor libertário, Domingos Ribeiro Filho, com quem tinha laços de parentesco. Esses companheiros de mocidade foram responsáveis pelas sugestões das primeiras leituras que começaram a modificar a sua visão burguesa e bem comportada do mundo. Embora nunca tenha sido um militante anarquista, as influências do ideário libertário espalharam no seu comportamento e mais intensamente na sua obra, depois de assimiladas outras experiências e de sua participação ostensiva na luta política, na década de 30.
A insistência de Oswald de Andrade, em elaborar projetos que contribuíssem para a transformação geral da sociedade, passou a ser uma constante na sua obra, desde do tempos da Antrofagia. Embora, as reflexões sobre política datem da fase de ligação do escritor com o PC, de 1931 a 1945. E, curiosamente, nestes trabalhos afloram anarquicamente as marcas do ideário libertário, desviando o seu Autor de posturas partidárias ortodoxas. Os projetos de Oswald tentavam, do mesmo modo que as doutrinas anarquistas, esboçar um sistema de filosofia social cujas idéias pudessem contribuir para promover mudanças na estrutura da sociedade. A maior parte dos textos políticos foi marcada pelo caráter didático, à semelhança de roteiros para conferências ou aulas destinadas a operários; outra parte funcionou como programa, orientando a discussão interna entre os companheiros. Saindo do âmbito restrito das tarefas internas para o plano internacional, pensou sobre o movimento político da atualidade. Denunciou o desenvolvimento do fascismo no Brasil, mostrando o perigo da disseminação desta doutrina autoritária. Oswald percebeu imediatamente a ameaça que representavam as primeiras manifestações de rua dos Integralistas (1933), no Brasil, alertando os operários: ” … já começam a desfilar pelas ruas as milícias dos filhos ricos (…) debaixo da proteção da polícia burguesa e da justiça de classe”.
O vosso sindicato, escrito em 1933, contém informações generalizadas incomuns para um escritor burguês, e, antes, próspero cafeicultor. Certamente foi o texto que serviu de base à conferencia pronunciada no “Sindicato dos Padeiros, Confeitarias e Anexos”. Baseando-se nas teorias de Saint Simon, fundamentou a analise sobre o desarranjo financeiro internacional e trabalhando com a velha idéia de que “economia e política são uma simples casca da outra”, analisou a causa do descalabro econômico e a dificuldade de se encontrar caminhos pacificas de organização social, em virtude da instabilidade política. Fundamentado em pesquisa minuciosa, reconstruiu a história dos sindicatos através dos séculos. Sindicato, alias era um assunto que estava em pauta na vida nacional, desde março de 1931 com a lei de sindicalizarão, que regulamentou a existência das organizações operárias e patronais. A pesquisa remontou à velha Roma, a fim de datar o surgimento de uma organização pacifica e benemerente de trabalhadores sob a forma de “colégio”. Além de ser um estudo sistematizado, de caráter informativo para operários, entremeiou sua posição pessoal com a narração de fatos, enumeração de dados estatísticos, etc. Não se trata portanto de um texto frio, cuja preocupação tenha sido a de meramente alinhar dados importantes ligados ao tema. Aproveitou-se da proximidade com o publico, que o tom do discurso de uma palestra podia oferecer, para se tornar mais ‘intimo dos seus ouvintes e com isso aconselhar e ensinar. Enfim, se posicionou como um professor experimentado, severo e cordial ao mesmo tempo, apresentando idéias de maneira simples e clara.
Alertou o operariado, menos politizado, para a força revolucionaria dos sindicatos pelo fato de serem agremiações de “despojados”. A propósito lembrou, que, enquanto as associações de benemerência foram formadas por escravos, os poderosos não se sentiram incomodados; a ameaça ao Capitalismo surgiu mais tarde com as associações operárias na era das grandes indústrias. Oswald pós o dedo na ferida do mundo operário: a arma de opressão dos capitalistas – o Estado – foi sempre manipulada contra a classe trabalhadora. Considerava o Estado burguês “o comitê administrativo e policial das classes ricas”. De todo modo, não descartou a relação intima das reivindicações econômicas com as conquistas políticas: as greves passaram a ter outro significado, além daquele “sentido corporativo e local de protesto econômico”.
Traçou um panorama histórico dos antagonismos sociais no mundo de 1917 a 1933. Nesta revisão, considerou, do ponto de vista do desenvolvimento das lutas de classe, o Renascimento como um período de novo alento para a historia da humanidade sob vários aspectos: a pregação do nacionalismo; a criação do mercado mundial e dos manufaturados; o espírito de aventura e particularmente a ênfase no papel do indivíduo na sociedade.
Oswald de Andrade estava presenciando uma série de reformas sociais, surgidas a partir da criação do Ministério do Trabalho, em novembro de 1930. Mas as medidas necessárias foram palidamente adotadas pela Revolução e estavam longe de regulamentar a lei de férias, os salários, a situação das mulheres e crianças. Reivindicações trabalhistas estas que foram efetivadas por iniciativa da Assembléia Constituinte, eleita em 3 de maio de 1933. Esta assembléia com uma organização corporativista, lembrando a estrutura política do fascismo italiano, também apoiada pelos Tenentes, trouxe certa atmosfera de progresso. Vários historiadores admitem que a tentativa de implantação do sistema corporativista, entre outras finalidades, objetivava neutralizar a influência comunista no movimento operário. Oswald não poupou critica iniciativas populistas do governo Vargas planejadas com o objetivo de neutralizar e minimizar a atuação revolucionaria dos sindicatos. Nesse sentido, conclamou os operários a desmascararem esses “lances demagógicos”, as “concessões de emergência”, e os “resultados catastróficos das suas leis sociais”. A situação de legalidade, proporcionada por aquela Assembléia, segundo Oswald, foi apenas aparente, uma vez que a “comédia parlamentar da Constituinte” permitiu a existência de centenas de trabalhadores presos sem processos. Como solução sugeriu aos operários: “organizar-se revolucionariamente e criar fracções revolucionarias marxistas nos organismos oficiais ou espontâneos”. é interessante observar como Oswald de Andrade oscilou em suas convicções: entre adotar a orientação marxista, no que diz respeito a necessidade de se organizar as agremiações operárias, preferiu sugerir também as reuniões pautadas pela espontaneidade e de tradição anarquista. Outra proposta, inspirada nesta tradição foi a idéia de entrosar o trabalhador do campo na mesma frente, dando a entender que não devia ser meramente o interesse especifico de cada profissão o fator de união: o ponto comum seria a condição de “despojado”. Para incentivar o trabalho de organização das bases operárias, recordou os momentos de bravura do proletariado paulista em face da burguesia: 1906 – a greve paulista; 1917 a greve geral; 1929 – os gráficos; 1930 -a Light; 1932 – os ferroviários. E com base nessas vitórias operárias, insistiu na necessidade de um balanço objetivo das conquistas reais e da força desses movimentos. Sem esquecer de assinalar que a grande diferença entre o proletariado em ascensão e a burguesia era a “fraqueza de se criticar e o poder de melhorar sobre a experiência dos próprios erros”, aconselhou, em tom professoral, aos operários: “libertar de todas as ideologias burguesas”, “fortalecer a teoria de classe” e por fim conscientizar-se de que a “emancipação do proletariado é tarefa do proletariado”. Estas recomendações divergiam intensamente da proposta libertaria, que não admitia uma pratica classista, na luta por um mundo diferente.
A conferência captou bem a atmosfera de confusão ideológica tanto do Autor como do momento nacional. Com as reviravoltas políticas a nível internacional, repercutiu no Brasil o estado de expectativa e ansiedade em relação ao quadro de opções políticas: “As palavras ‘socialismo’, ‘esquerda’, revolucionário’ abriram as suas entradas secretas, seus alçapões e labirintos aos refugiados dos terremotos capitalistas” … Diante desse panorama, Oswald mostrou-se entusiasmado com o exemplo da realidade soviética e a atuação dos seus sindicatos, responsáveis pelas sugestões de aperfeiçoamento do regime. Confrontou esta realidade, no seu entender, ideal com a situação de miséria e exploração do mundo capitalista. Ao lado desta visão entusiasta do modelo soviético na época, realizou previsões atualíssima e certeiras, que se confirmaram no mundo ocidental, décadas depois: “0 dia de amanhã será com certeza pior do que o de hoje. A racionalização capitalista continuará a despedir, a diminuir os salários, a tapear os seguros, a perseguir e entregar à polícia os trabalhadores conscientes”.
Dois pontos podem ser destacados como novidade no pensamento critico dos intelectuais modernistas. Antes de mais nada, a escolha política feita por Oswald foi singular, comparando-se com a dos seus companheiros. Oswald tentou contribuir concretamente, como escritor, através de uma produção especifica e orientada, mesmo considerando-se a ingenuidade e pobreza das argumentações teóricas. Voltados para a educação e o crescimento espiritual do trabalhador, seus textos são ricos de sugestões com a intenção de auxiliar o operário na reflexão sobre seus direitos políticos e sobre seu papel na luta pela transformação da sociedade. Entusiasta, superdimensionado foi o papel traçado, pelo escritor, para a ação do proletariado no futuro da humanidade. E nesse percurso, não deixou de anotar a dívida dos movimentos operários para com o “mundo sonhado pelos utopistas e anarquistas”. Outro elemento novo, na reflexão dos modernistas na década de 30, foi a crítica explícita à Revolução Constitucionalista de 32. Elogiou a atitude dos operários por não se ter deixado levar pela “histeria pequeno-burguesa das paulistas. .. ” e por não ” (… ) formar batalhões patrióticos sob a direção dos sicários da ordem social e dos tubarões da ordem feudal”
Em ‘O Lar do operário” (do início da década de 40) traçou a síntese de um programa social, espécie de plataforma política. Ao esboçar sua visão crítica da sociedade, apresentou uma análise pessimista: “vagamos em pleno caos”. No radiagnóstico do mundo capitalista, seus argumentos endossaram afirmações simplórias do tipo: ‘O Capitalismo é gravemente acusado de ter feito aflorar todos os ódios subterrâneos de que a humanidade primitiva ela capaz”; ao lado de sugestões como: ” É portanto nos desregramentos da economia que devemos procurar os males que tanto desasossegam o homem moderno”; e conclusões que consideravam a redução ao símbolo monetário de toda a gana das ambições humanas a origem do “profundo desgosto que inquieta todo mundo”. Análises e conclusões entremeados de motivos da pregação libertária: “É o sentimento individual da competição que rompe a tessitura da coletividade. Necessário (…) reeducar um ser viciado na adulação e no reclame como é o homem atual”.
Fazendo um panorama dos movimentos propulsores de transformações sociais importantes, observou que depois da revolução francesa, ao contrário do que se esperava, a exploração do homem pelo homem tornou-se mais organizada. Decepcionou-se com o surto civilizador do século XIX, no tocante às conquistas sociais. A obra dos enciclopedistas, no seu modo de ver, refletiu o protesto sentimental contra as velhas pressões e não passou de uma proposta primária de planos liberais. Considerou mais alentador o surgimento do “socialismo utópico”, sobretudo quando este discutiu questões concretas do ponto de vista social e econômico.
Na elaboração dos planos sociais, Oswald achava importante observarem se as coordenadas histórico-geográficas de nosso país, evitando-se as costumeiras transplantações de sistemas sem as adaptações necessárias. Apesar de ter se manifestado contra a política ditatorial fascista do Estado Novo, admitiu que “de 1937 para cá rumou o país para os moldes necessários às suas íntimas transformações. O Estado Novo colocou o Brasil na marcha da historia contemporânea”. A leitura dos textos oswaldianos da década de 30, leva-nos a perceber a consciência que o escritora tinha do grau destas mudanças e do tipo de modernização, em processo, bastante precário, não modificando substancialmente a estrutura econômico-social preexistente. De qualquer forma Oswald de Andrade, como vimos, reconheceu as novidades colocadas em cena e que foram bem assinaladas pelos estudiosos do período 2: advento de uma sociedade urbano-industrial, fim do predomínio da oligarquia agro-exportadora e dos particularismos de ordem local, predomínio da ordem pública.
Mesmo não demonstrando em nenhum momento simpatia pelos sistemas totalitários, aceitava, para determinados períodos de reconstrução da sociedade o poderio superior do Estado, com o objetivo de sanear a vida política, econômica e financeira de uma nação; recomendava sobretudo a ordem e o equilíbrio como terapias imprescindíveis.
Quando sugeriu a intromissão do Estado na política reestruturadora, não pensou evidentemente no Estado burguês – “inimigo dos operários”. O programa de reconstrução social, claramente exposto em “0 Lar do operário “afastou-se da espontaneidade anarquista na luta pela reconstrução social e propôs um Estado tutelar, provisório. Todavia, este sistema devia admitir a construção pelo próprio indivíduo “de seu clima de liberdade” conquistado pelo trabalho pessoal de cada um. A responsabilidade do Estado consistia na tutela dos níveis baixos de vida e na responsabilidade de sua constante evolução.
Introduziu um conceito especial de propriedade: lar, “a célula dignificante de todo homem e o ponto de apoio de toda a estrutura coletiva”. Na impossibilidade de, nesta primeira fase de seu projeto de reestruturação da sociedade, abolir se completamente as classes, aceitou a existência de camadas: a primeira colocada sob a tutela direta do Estado, em seguida a do operário, dignificado pela “conquista de um lar”. Não explicou como se realizaria a convivência com as outras camadas. Da mesma forma, fazia conjecturas sobre o destino do Estado, depois de restabelecido a “saúde social”: “pura função policial, ladeando uma comunhão de homens livres” ou sua completa extinção, Durante o período de transição, planejou como tarefa a ser desempenhada pelo Estado a assistência à massa desamparada (“0 lar do Estado”). Com este projeto, Oswald tentou simploriamente resolver a disputa entre a tendência coletivista (propondo O Lar do Estado) e a individualista (O Lar do Operário).
Lançou mão de vários receituários ideológicos, a fim de traçar um programa de reformas sociais mais próximo da realidade. Não teve nenhum pudor em misturar o ideário dos pensadores utópicos e anarquistas às propostas adversárias do Partido. Influenciado pelas idéias anarquistas, concebeu o esquema da divisão das tarefas de acordo com a habilidade e com o esforço pessoal. O trabalho intelectual ou técnico devia ser condicionado apenas pelo “exclusívo valor mental”, sem condicionamentos de classes. Repetidas vezes, Oswald de Andrade manifestou esta opinião: “Haverá sempre uma seleção de elites culturais por especialização vocacional. O acesso à cultura geral tem que ser facilitado e atribuído a todos. Isso sim. Mas os temperamentos e as cabeças divergem”.
É bem verdade que na fase de relacionamento com o Partido Comunista, Oswald perdeu o entusiasmo pelas teorias anarquistas que o animaram desde o seu tempo de estudante de Direito. Os textos da década de 30 refletem esta atmosfera, embora deixem transparecer também idéias opostas aos princípios do Partido ao qual estava ligado. Assim se verificou quando Oswald analisou o papel do Estado na transformação e no desenvolvimento de uma nova sociedade. Não aceitou o Estado burguês repressivo e defensor do sistema capitalista, também não viu com bons olhos a dominação permanente de um Estado totalitário. Além disso, durante este período de ativismo político, colocou em quarentena o vigor das teorias estéticas renovadoras da década de 20 e as reivindicações mais ousadas de caráter geral. Inclusive a proposta anarquista, esboçada na Antropofagia, de reivindicação da posse contra a propriedade foi suspensa até os anos 40, quando a retomou nos ensaios de filosofia, nas famosas teses universitárias e de modo muito irreverente no volume “A revolução melancólica” do Marco Zero. Na teoria da “economia do ser” desenvolvida ainda no período antropofágico, em contraposição à “economia do haver”, Oswald de Andrade chegou bem perto da tentativa de abolição do dinheiro proposta pelas sociedades libertarias. Pregava a Antropofagia, na esteira do Anarquismo, a imediata distribuição equânime dos bens adquiridos, tomando como base o sistema de serviços prestados e benefícios retribuídos.
Oswald também em questões anarquistas não foi ortodoxo, como não o foi durante suas ligações com o Comunismo. Aliás dogmatismo não passava por seus projetos, estando sempre pronto a rever suas idéias. Em depoimento fragmentado ele se auto-analisava: “Tem apenas a coragem das suas transformações. É um ultra sensível ( …) Colonial com Théatre Bresilien (l9l6), anarco-cristão com a desgraça e a solução sentimental a que se acolhe o lumpen de que fazia parte como boêmio em (l922), anarco-feudal em Pau brasil e Primeiro Caderno – reflexo da alta vida a que subira com a fortuna herdada extremando-se em anarco-indígena com Serafim e a Antropofagia comunista enfím (… )” 3. A sua trajetória literária dá para ilustrar nossa argumentação, sem precisar recorrer a outros depoimentos. Em 1933, renegou os princípios burgueses no famoso prefácio do Serafim, mas fez também a autocrítica de seu engajamento político, e ao romper com o Partido Comunista ofereceu, nas paginas dos principais jornais do país, um balanço critico contundente da atuação deste Partido no cenário político nacional. Como vínhamos assinalando, são infinitas e bem evidentes as afinidades entre Oswald e as diferentes teorias anarquistas. Mesmo assim, o escritor não hesitou em tecer criticas ao desempenho de certas lideranças no nosso país. Embora longa a citação, é interessante ouvi-lo diretamente sobre o problema: “No Brasil, o Anarquismo ou se despe nos braços de sonhadores boçais ou veste francamente a roupa “apolitíca” da polícia política. Tem assim produzido as maiores traíções à classe dos trabalhadores, sempre ligado a generais da milícia ou do trotskismo. Como no Brasil tudo chega atrasado, isso se explica. A hora do Anarquismo já passou. Hoje só se atinge o bem individual através do bem coletivo. Foi no século passado no apogeu do Capitalismo individualista que o Anarquismo prosperou. Veja-se a onda emocional de Níetzche e Dostoiewski, a politica de Bakunin e Vera Zassoutitch, a filosofia de Schopenhauer a Bergson, a estética do Impressionismo ao Pontilhismo e ao Fauvismo”4.
No que diz respeito à assistência direta ao trabalhador, dentro da sua especialidade, Oswald de Andrade esteve preocupado com a educação e a informação no plano da cultura em geral. Como os anarquistas, acreditava que a emancipação intelectual do trabalhador era um passo para a caminhada com destino à revolução. Programou edições voltadas para o operariado, com o enfoque de assuntos, que além de ser de interesse do trabalhador, despertassem sua curiosidade e o desejo de ampliar seus conhecimentos. O projeto da “Pequena Enciclopédia Proletária”, por exemplo, previa a edição de 50 volumes de 100 a 200 páginas, englobando conhecimentos gerais, com volumes voltados especificamente para a literatura, artes plásticas, música, cinema, TV, informações sobre fatos cotidianos, biografias e aspectos particulares de política operária, etc. Enfim, uma mini-biblioteca, cujos temas estavam selecionados por volumes, e que certamente não se tornou realidade. Oswald de Andrade voltaria à política depois de seu desligamento do Partido Comunista. No final da década de 40, candidatou-se a Deputado Federal pelo Partido Republicano Trabalhista. A sua plataforma eleitoral estava sintetizada no lema: Pio, Teto. Roupa, Saúde, Instrução e Liberdade. Trazia também a propaganda do seu percurso de escritor, jornalista e polemista famoso com depoimentos de vários intelectuais dos mais variados credos ideológicos: de Jorge Amado e Astrogildo Pereira a Gilberto Freyre, Tristão de Athayde e Cassiano Ricardo. Esse candidato da “mulher trabalhista” e do “trabalhador intelectual” não conseguiu eleger-se.

REFERÊNCIAS:

1. Oswald de Andrade. Um homem sem profissão. Rio de Janeiro, Cív. Brasileira, 1974.

2. Eli Diniz. O Estado Novo. Estrutura de poder e Relações de Classes. ln: Boris Fausto (org.) O Brasil Republicano. São Paulo, Difel, 1981. t. 3, v. 3, p. 79-120.

3. Fragmento de manuscrito, sem titulo.. Acervo Oswald de Andrade (Coleção Adelaide Guerrini de Andrade) Centro de Documentação IEL-UNICAMP.

4. Fragmento de manuscrito, sem titulo. Acervo Oswald de Andrade (Coleção Rudá e Marília de Andrade) .

 

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Dicionário de Bolso

Atacar com saúde os crepúsculos de uma classe dominante não é de modo algum ser pouco sério. O sarcasmo, a cólera e até o distúrbio são necessidades de ação dignas operações de limpeza, principalmente nas eras de caos, quando a vasa sobe, a subliteratura trona e os poderes infernais se apossam do mundo em clamor.
Oswald de Andrade

Texto inédito de Oswald de Andrade, escrito ao longo das décadas de 30 e 40, sob a forma de um curioso dicionário, sem ordem muito rígida, exceção talvez de uma vaga cronologia. E´ comparável a uma passagem célebre do Serafim Ponte Grande, que tem o mesmo título e que determinou, aliás, a escolha deste, uma vez que o próprio autor deixou esta lacuna.

Os personagens, os nomes, as citações enfileiradas não se restringem à vida contemporânea nacional. Eles passam, sem cerimônia da Bíblia à Revolução russa, dos filósofos gregos às stars de Hollywood. Impertinentes, corrosivos, sedutores e exasperantes, tudo junto e ao mesmo tempo, os verbetes do Dicionário de Bolso provêm da veia mais autêntica e provocadora de Oswald. O Dicionário tem um efeito tônico, no mais alto grau, atinge diretamente o público contemporâneo. Não se trata de uma revisão, feita pelo próprio Oswald, das suas posições extremas, uma reconciliação qualquer com os seus antigos ódios, mas a expressão mesma do lado “dragão” do Autor do Manifesto Antropófago.

Porisso, o trabalho de montagem desses inéditos não visou unicamente ao estudioso ou ao especialista. Procurou-se através de uma breve apresentação tornar transparente os mecanismos de criação do texto, a relação com sua época e com o restante da obra de Oswald.

Tentaremos descrever os mecanismos de criação do Dicionário de bolso de Oswald de Andrade e traçar as redes de ligação com sua época e o restante da obra do escritor. Para contar a história interna de realização dessa obra intrigante e curiosa, denominamos o conjunto de cinco textos que constitui o corpus do Dicionário de A, B, C, D, E e F. Estes originais inéditos, alguns independentes e fora de ordem, estavam fragmentados no meio da papelada desarrumada do autor. Atualmente, encontram-se no Arquivo do escritor depositado no Centro de Documentação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Do primeiro – o A – manuscrito com nove folhas soltas de um bloco sem pauta, redigido em tinta vermelha, encontramos apenas as folhas 98,99,100,101,109,113,114,119 e uma folha sem número. Este manuscrito tratou das seguintes personalidades (doze ao todo): Blanqui, Comte, Bebel, Ford, Clóvis Bevilacqua, Gandi, Macdonald, João Alberto, e provavelmente pela definição, porque não há indicação dos nomes, também Engels, João Candido, Carmona e Macedo Soares; sendo que oito deles estão incompletos: Engels, Comte, Ford, Macdonald, Bebel, João Candido, Carmona e Macedo Soares. Talvez este manuscrito tenha sido datilografado na década de 40, resultando no texto denominado nesta introdução de B (até essa época Oswald não batia à máquina seus textos, começou a adotar essa prática quando contratou Maria Antonieta d´Alkimin para copiar o segundo volume do Marco Zero). Esta hipótese se fundamenta no fato de que cinco verbetes existentes no manuscrito A estão contidos no texto B e são absolutamente iguais: a definição integral de Blanqui, os trechos relativos a Engels, Bebel, Comte e João Cândido.

O segundo – o B – texto datilografado, composto de 10 folhas, numeradas de 22 a 31. Trouxe o título, Notas e Informaçào, a lápis, no início. Duas páginas estão danificadas (rasgadas) na parte superior da folha: a p. 24, prejudicando a leitura das observações sobre Cristo e a p. 25, atingindo a parte inicial relativa a Thomas More. Como dissemos acima apenas cinco verbetes do manuscrito A reapareceram no B (Blanqui, Bebel, Comte, Engels, João Cândido).

Pelo seu caráter de esboço preliminar, sem preocupação lúdica e inventiva de criar, podemos pensar que esse texto foi o ponto de partida para os demais, sobretudo se examinarmos as transformaçòes sofridas pelos verbetes nos demais textos. A leitura dessas primeiras Notas orientou a identificação de dados circunstanciais de época relativos a uma ou outra personalidade menos conhecida e informou o mecanismo usado pelo escritor para construir este Dicionário.

Através desse texto com pequenas correções do Autor a lápis, Oswald desenhou um perfil crítico mais detalhado de vinte e sete nomes: Buda, Confúcio, Aníbal, Eutrópio, Herodes, Cristo, Santo Agostinho, Wiclif, Thomas More, Maquiavel, João Ramalho, Calabar, Cromwel, D’Holbach, Babeuf, Owen, Engels, Blanqui, Comte, Stirner, José do Patrocínio, Floriano, João Cândido, Bebel, Stalin, Trotski, Mussolini. As correções, os acréscimos e as supressões efetuadas nesse texto foram poucas e insignificantes. Merece destaque apenas uma alusão a Menotti del Picchia, intercalada no meio da definição de Cristo. O seu contexto revelou violenta crítica a todas as tendências da esquerda dissidente do PC – “os confusionistas de qualquer espécie”, entre os quais Oswald incluiu o “lacaio Menotti del Picchia”.

O trabalho com os verbetes, nesses dois primeiros documentos foi uma primeira tomada de contato com o assunto; organização de dados de pesquisa em torno das personalidades escolhidas, filtrando suas peculiaridades com o objetivo de proceder à redação final elaborada gradativamente nos textos subsequentes. Nessa pesquisa, tudo leva a crer que Oswald tinha uma idéia previamente formada e procurava elementos para ilustrá-la. Os verbetes Buda e Confucio confirmaram isso. Antes da concisão lapidar do texto F – “usina de ópio”, todas as observações tentaram justificar a alienação do sincretismo supersticioso provocado pelo “relaxamento da unidade religiosa” e incentivado pelo “imperialismo”. Buda foi então o “principal entorpecente religioso das massas asiáticas. Secular amigo de Lao Tsé e Confucio no avacalhamento histórico dos amarelos” […]. Para chegar a definiçào de Confucio do texto F (“mãe dos confusionistas chineses. Um padre safado a serviço de castas, cerimoniais e imperialismos”) , Oswald no manuscrito B recorreu à reprodução de uma história chinesa, narrando a tentativa de Confucio de pacificar o bandido Tché, praticante do canibalismo. História essa retirada do Manual católico da história das religiões de Leon Wieger e transcrita no n.1, 17 de março 1929, 2a. dentição, da Revista de Antropofagia, sob o título “Confucio e o antropófago”.

Em Eutrópio, Oswald aproveitou para alfinetar a historiografia brasileira, aquela que ensinava a “história de Roma pelas anedotas dos imperadores”. Dentro desse espírito crítico não perdeu a oportunidade de apontar os estragos do positivismo na mentalidade do Brasil (verbete Comte) e de criticar a atuação do anarquismo, ao falar de Stirner. A definição de Trotski representou na realidade uma síntese do momento político-nacional na época, da postura política do autor e uma impiedosa condenação do trotiskismo considerado “a gaiola amarela para onde tem que saltar expulsos ou não admitidos no Partido Comunista – os revoltados tímidos, os intelectuais moles, os burgueses só ideologicamente desiludidos”. A sensibilidade embrutecida do político militante e do homem ressentido renegou práticas políticas anteriormente adotadas e também velhas preferências estéticas: “mas os trotskistas brasileiros querem mostrar que se interessam pela soltura preventiva de um pederasta, [o poeta Aragon] em vez de protestar contra a prisão de inúmeros militantes comunistas, detidos de fato pela polícia burguesa brasileira”.

Em outras passagens, evidenciou-se a funçào do manuscrito A e B no trabalho de criação desse Dicionário. Oswald precisou obviamente dessa etapa anterior de aprendizagem. Reuniu detalhes importantes a cada uma das personalidades escolhidas antes de encontrar o resultado aparentemente enigmático e conciso de Babeuf – “guilhotina”; de Robert Owen – “contra-mestre da revolução social”. E´ possível ainda avaliar o processo surpreendente da passagem de uma constatação banal sobre a história factual (nesse texto B) para um achado inteligente, incorporando ludicamente a literatura e a história como ocorreu na definição de Cromwel.

O escritor manifestou exaustivamente seu ódio contra a burguesia ou contra a classe dominante. Caso típico das definições de Maquiavel – “Sabido sim, mas safado. Foi o fundador da política científica para uso dos opressores”; de Mussolini, acompanhada de uma longa digressão sobre as artimanhas da burguesia para se manter no poder: “A burguesia, quando se vê perdida eleva ao estado de dependência social o estado de sítio, adota como normais as piores medidas de exceção, apela para a ditadura e declara que uma nova fórmula de “união nacional” elimina e supera a luta de classes”. A forma peculiar de elaboração de outros verbetes nesse manuscrito, serviu também para esclarecer ao leitor as peripécias de alguns heróis do passado escondidas nas condensadas realizações do texto definitivo. Além dos já citados Babeuf e Robert Owen, na definição de João Candido a referência aos incidentes políticos, em consequência da revolta dos marinheiros em 1910, no Rio de Janeiro, justificou o achado do texto final – “Nuvem negra no horizonte social do Brasil”.

Do terceiro, ou melhor do manuscrito C, redigido a lápis, sobraram 31 folhas soltas, não numeradas de um bloco pequeno (0.16 x 0.17,5) sem pauta. Em alguns trechos a bem desenhada caligrafia oswaldiana excepcionalmente apresentou dificuldades de leitura, além do que, a correção realizada riscando palavras e sobrepondo outras aumentou a ilegibilidade. Oswald começou a numerar os verbetes (quarenta e cinco ao todo) mas não prosseguiu. Sintomaticamente Caim figurou como primeiro verbete nesse manuscrito e no último. Pedro Eremita ganhou o número 80. Dessa versão numerada restaram apenas as sequências 01 a 03 (Caim, Noé, Moisés), de 09 a 11 (Platão, Aristóteles, Tibério Graco), de 78 a 80 (Carmona, Judas e Pedro Eremita). Não conteve nenhum verbete proveniente do manuscrito A, mas incorporou três verbetes do texto B, embora com redação totalmente diferente: Robert Owen, Santo Agostinho e Thomas More.

O quarto texto – o D – também autógrafo, redigido a tinta vermelha, em bloco sem pauta (0.16 x 0.22,5) é uma versão mais aprimorada e mais completa. Lamentavelmente incompleto, foram conservadas as folhas numeradas de 5 a 7, 9 a 13, 17 a 28, 30 a 31, 38 a 54, 59 a 64, 66, 69, 72 a 75, perfazendo um total de 64 folhas soltas e 132 verbetes. A numeração atingindo até a folha 75 deu uma idéia do tamanho do manuscrito se não apresentasse as falhas apontadas. Conteve nove nomes presentes no manuscrito A; do texto B vieram dezenove verbetes; do manuscrito C incorporou vinte e cinco nomes. (Para uma melhor visualização da história dos verbetes elaboramos, em anexo, um quadro completo da presença de cada um nos diferentes textos).

Comparando com os anteriores (A B C), a linguagem do manuscrito D é mais enxuta e trabalhada. Haja visto a configuração dos verbetes sintéticos e elaborados, revelando uma transformação radical, como em Comte, Floriano, José do Patrocinio, João Candido, Mussolini, Francis Bacon.

Dois outros textos datilografados compõem o restante do corpus do Dicionário. De um deles, do E, recuperamos apenas 14 páginas, não numeradas, (algumas folhas sem nenhuma sequência) com correções a lápis, composto de 92 nomes. Reproduziu seis nomes do manuscrito A; dezesseis do texto B; dezoito do manuscrito C; cinquenta e dois do manuscrito D.

O comentário de Mauricio de Lacerda foi riscado, algumas observações acrescentadas à mão desapareceram na segunda releitura. Por exemplo, no final do verbete Mário de Andrade, Oswald concluiu a definição com a frase escrita à mão “De resto serve”, mais tarde suprimida por um risco vermelho. O comentário “Muito parecido pelas costas com Oscar Wilde” , que integrava o verbete, também foi eliminado a partir dessa redação por um risco a lápis. Paralelo a isso, a expressão “Macunaíma traduzido” presente desde o texto C, foi substituída à mão por “Macunaíma de Conservatório”. Nos verbetes Trotskiy e A Camarada Rosa de Luxemburg o autor riscou a lápis a última frase: “Pai e mãe dos onanistas sociais” e “Hoje, por toda a Alemanha, começa a brotar a flor comunista”, respectivamente. Na definição de João Cândido, acrescentou a lápis a expressão “social”; da mesma forma procedeu com a palavra universal, em relação a Shakespeare. Em Joseph De Maistre, cuja citação escolhida apareceu no n. 14 da Revista de Antropofagia, em 1929, teve uma leve alteração logo no início: De “Pilar moralista da burguesia católica” […] passou a “Moralista da burguesia católica” […].

No verbete Macedo Soares, com nova configuração a partir desse texto, a definição foi inteiramente eliminada, mas sofreu um reparo, a lápis, no momento da revisão “o nosso lamas” e “PEACE CHANCELOR” (reparo eliminado na revisão deste mesmo texto); o comentário sobre George Washington igualmente não foi considerado definitivo. Logo após a definição “Senhor de escravos da Virgínia”, o escritor acrescentou a lápis: “e pai da liberdade americana”. São Vicente Rao teve suprimido parte do título (São) e ganhou uma frase a mais: “Segurança da lei”.

Finalmente o texto F – cento e oitenta e hum verbetes – datilografado, numerado de 1 a 21. Apresentou em geral correções do autor, a lápis (preto e lilás), a tinta (preta e verde). Levando em conta os manuscritos anteriores, permaneceram nesse texto: nove verbetes do manuscrito A; dezenove do B; trinta e três do C; cento e sete do D; e oitenta e quatro do E. Do ponto de vista da redação, os verbetes dos manuscritos A e B reproduzidos foram completamente alterados. Do manusscrito C, nove verbetes tiveram redações absolutamente iguais ao texto em questão: (Olegário Maciel, Moises, Bandeirante, Virgílio, Holofernes, Montaigne, São Cirilo, Pedro Eremita, Judas) outros foram radicalmente modificados como: Cardeal Sebastião Leme, Thomas More, Salomão, Santo Agostinho, São José Crisóstomo, Santo Ambrosio, Catilina, O historiador José, Caim, Moisés, Robert Owen, George Washington, Tibério Graco. Antes de ter sofrido as correções feitas à mão pelo autor, o texto F tinha as mesmas características estilísticas do manuscrito D e do texto E, com exceção dos nomes abaixo citados: Santo Agostinho, O Egiptólogo Ehrmann, Plínio Barreto, O camarada Lozovski, Lindolfo Collor, José Carlos Macedo Soares, Rogerio Bacon, Wiclif, Pontes de Miranda, George Washington, Mário de Andrade, Vicente Rao, Mauricio de Lacerda. Há uma boa relação de nomes ausentes no texto F, que poderiam ser pinçados nos manuscritos anteriores. Do manuscrito A apenas um: João Alberto; do manuscrito B dois: Buda e Confucio; do C, nove verbetes, Autor dos Atos dos Apóstolos, Kolontai, Jonas, Josué, Platão, Aristóteles, Ezequiel e Licurgo; do manuscrito D foram levantados treze nomes: Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto. (ver quadro em anexo).

Alguns verbetes sofreram alterações maiores. Quatro foram riscados: Camarada Lozovski, Plínio Barreto, Lindolfo Color e Paulo Prado. No verbete de Artur Bernardes, Oswald preferiu suprimir a crítica mais contundente: “Assassino do povo e falcatrueiro. Por isso mesmo candidato ao penico ditatorial do Sr. Getúlio Vargas”. Como fez no manuscrito anterior, retirou a última frase da definiçao da Camarada Rosa de Luxembourg e da de Trotski. O acabamento dado para George Washington não contentou o escritor. Em mais uma tentativa de modificação riscou a palavra Virginia do sintagma “Senhor de escravos da Virgínia” e também a lápis fez o seguinte acréscimo: “que proclamou a liberdade dos senhores de escravos”.

O verbete Dom Sebastião Leme foi radicalmente modificado. O título sofreu acréscimo e supressão: Cardeal Dom Sebastião. A definição “Paninho de N.S. Jesus Cristo” virou “Leme sem navio”. Em João Cândido, como no manuscrito E, acrescentou a palavra “social” – “nuvem negra no horizonte social do Brasil”. O verbete Santo Agostinho foi corrigido logo na primeira frase de “Talvez o maior doutor da Igreja” para “Grande doutor da Igreja”; O nome de Francis Bacon, que vinha sendo trocado por Rogerio Bacon em todos os manuscritos em que figurou, foi consertado. Oswald a lapis riscou a palavra Rogério e escreveu acima Francis seguido de um ponto de interrogação.

Em algumas definições, interferências de ordem interpretativa quebraram a impersonalidade de determinadas frases como foi o caso do verbete Wiclif. Introduzindo a citação, a expressão “escreveu isto” foi mudada para “escreveu este erro simpático”. Antes da última frase – “Leitor pequeno-burguês, não será você?” – Oswald com um lápis lilás observou “Nota”. Shelley perdeu o qualificativo de “grande” poeta.

Modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos. Algumas delas estão na linha da tentativa de eliminar as estocadas de ordem pessoal, como a referência “Um prefeito idiota – o Dr. Pires do Rio”, presente no verbete Conde Matarazzo simplesmente resumida para “Um prefeito”. Na definição de Antonio Conselheiro foi retirado o ataque direto ao Conselheiro Antonio Prado. Preferiu o escritor centrar sua ironia no Partido Democrático, ganhando o verbete mais concisão e graça. Outras pretenderam sanar equívocos de datilografia, como aconteceu com o verbete João Cândido, uma vez que a expressão social, acrescentada à mão, aparecia desde o manuscrito D. Na releitura Oswald esteve preocupado em limpar o texto, isto é, torná-lo sintético e rápido. Condensou a definição de Ford e modificou o último trecho de “Por essas e outras, é que estamos “fordidos”” para “Nós, por exemplo, estamos “fordidos””. Já Miguel Costa ganhou uma frase irônica “Dizem que está criando juizo”. Da mesma forma José Carlos de Macedo Soares recebeu mais uma definição simpática “Copa de Ouro”. Em Pontes de Miranda os acréscimos deram um tom de trocadilho aos qualificativos “tenentes da direita pretendem alcançar a margem esquerda da revolução”. Outras modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos.

Comparando todos os manuscritos, podemos fazer um amplo elenco de nomes ausentes no texto F: Jonas, Josué, Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto, Autor dos Atos dos Apóstolos, Ezequiel, Kolontai. Portanto dezenove nomes, pinçados nos documentos anteriores (A, B, C, D).

No texto B, verbete Trotski, houve uma única referência explícita ao momento em que Oswald escrevia este Dicionário: “fevereiro – março de 32” (certamente época da redação dos quatros primeiros textos). Todavia, a ordem cronológica da elaboração dos textos E e F (provavelmente datados da década de 40) pareceu bastante relativa se pensarmos nas peculiaridades do processo artesanal do escritor que refazia e corrigia os seus trabalhos inúmeras vezes. Pela mudança de lápis e de tinta podemos prever as várias leituras e consequentes reparos. Como o escritor levava bastante tempo para dar por concluído seus escritos, as modificações introduzidas nesss dois textos certamente refletiram novas posturas estéticas, o amadurecimento pessoal do Autor ; a mudança de opinião a respeito de pessoas, inspirada por novas atitudes e posições defendidas na época pelo escritor ou pela figura apreciada, e ainda por desentendimentos pessoais. O caso de Vicente Rao é expressivo. Velho amigo e advogado de Oswald, desde os tempos da “garçonnière” da Líbero Badaró (19l8), Rao na década de 30 tornou-se Ministro da Justiça do Estado Novo. A frase – “segurança da lei” acrescentada e a retirada do São do título do verbete foi historicamente datada e acompanhou alterações na trajetória político-intelectual do escritor e do antigo colega de Faculdade. Essas correçòes estão presentes apenas no texto E, sendo assim, este fragmentado manuscrito não deve ser considerado rigidamente anterior ao F. As revisões, os acréscimos confirmam a simultaneidade de realização do E em relação ao F, ou ainda que Oswald fez muitos consertos no texto E, depois de ter concluído o F.

As inúmeras correções permitem ao leitor visualizar a busca consciente e esforçada de um estilo adequado ou de um achado interessante, quer com brincadeiras do tipo mais apreciado pelo escritor – jogos de palavras, trocadilhos – quer pela exploração ou subversão da idéia, da frase alheia, etc. como exemplificam alguns dos verbetes citados: São Tomé – “Visionário que enxergava com os dedos”; Loiola – “Má companhia de Jesus”; Pombal – “Terremoto de Lisboa na Companhia de Jesus”; Mauá – “Maquinista nacional que apitava em inglês”, etc.

Um outro aspecto marcante na reescritura oswaldiana diz respeito às reelaborações. A partir da obra construída o autor descobria novos caminhos, apenas riscando palavras, mudando-as de posição ou trocando-as por outras. Encontramos um bom exemplo ao observar as modificações no verbete Dom Sebastião Leme nas cópias E e F, onde o sobrenome do religioso passou a ser peça chave de sua própria definição : “Paninho de N.S. Jesus Cristo”. Refeito temos: Cardeal Dom Sebastião: “Leme sem navio”.

Ao longo dos manuscritos, o autor foi realizando modificações atenuando comentários maliciosos, críticas fortes ou injustas. Particularmente tentou eliminar as observações ligadas à vida íntima das personalidades enfocadas. Deparamos muitas vezes com comentários mordazes de cunho pessoal riscados (no verbete Mário de Andrade – “de resto serve”, “muito parecido de costas com Oscar Wilde”) e as observações em torno do nome de Paulo Prado, totalmente eliminada no texto F: “Cocote viajada e lida a serviço do imperialismo inglês”. Procedimento idêntico aconteceu na definição já comentada de Antonio Conselheiro no texto E e na primeira redação do F. Alterado somente na releitura do texto E para a versão da montagem final. Na cópia C, acompanhava o verbete Dom Sebastião Leme (já citado) uma nota de rodapé desaparecida no texto seguinte – o D: “O Dr. Amoroso Lima, dono da fábrica de Toalhas de Paque – tá, foi quem descobriu essa intimidade do Cardeal brasileiro com o deus do Corcovado”. Apesar de tudo, sobrou uma ou outra crítica mais forte dirigida principalmente a antigos companheiros: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, etc.

Os verbetes mais curtos se revelaram os mais interessantes. Basicamente sintagmas nominais, sem o tom descritivo, rápidos e irreverentes, são deliciosamente engraçados os comentários sobre Cabral (“o culpado de tudo”), Einstein (“Passa-tempo perdido no espaço-tempo”), Hitler (“Bigodinhos de aço”), Edison (“Lâmpada de ladino”), Mussolini (“Macarronada com sangue”). Verdadeiras máximas, onde a brincadeira surgiu às custas do achado de idéias buscadas na biografia dos próprios personagens em foco; há ainda a possibilidade de algumas citações deslocadas do seu contexto original provocarem o riso, como é o caso da definição encontrada para Laudo de Camargo: “Le cocu magnifique”.

Oswald não deixou nenhuma sugestão de título para essa obra inacabada. Não encontramos nenhuma referência a este projeto em particular no conjunto da obra oswaldiana. O título proposto, Dicionário de Bolso, foi inspirado no Serafim Ponte Grande, especialmente no seu secretário José Ramos Pinto Calçudo autor de um dicionário de bolso, “para não confundir nem esquecer as pessoas que conhece ou conheceu”. Oswald e Pinto Calçudo usaram algumas técnicas semelhantes. Ora apelaram para o recurso da manipulação de um verbete em relação ao outro imediatamente anterior ou posterior (ver definições de George Sand e Chopin e a letra H na “literatura de bombordo” do Serafim); ora determinada personalidade foi nomeada exatamente por suas qualidades díspares e distantes, como aconteceu com o vizinho de quarto de Pinto Calçudo o “sábio alemão e massagista” Klober; por exemplo João Ramalho: “pai natural dos paulistas legítimos”; Locke: “Avô liberal dos conservadores modernos”.

Não houve um critério explícito por parte de Oswald na escolha dos nomes para compor esse dicionário e também para sua organização. Figuras históricas e bíblicas, nomes ligados à tradição greco-latina, representantes do pensamento universal, políticos, grandes escritores, estrelas de cinema se misturaram desordenamente nas páginas desse dicionário exótico. Curiosamente apenas um nome da vanguarda histórica européia do início do século o amigo e pintor cubista francês Léger. Do Brasil, afora os políticos, um bom número de modernistas e todos definidos pela veia ferina do velho companheiro. Com exceção de três verbetes – O gigante de pedra, o Bandeirante e o Proletário – todos os demais são nomes próprios.

Na definição de certos personagens houve a intenção clara de reavaliar seus papéis, ressuscitando uma antiga obsessão oswaldiana de por os pingos nos iis na historiografia brasileira. E para isso escolheu redefinir o papel histórico de alguns mitos: Floriano (“Baleiro da História do Brasil”), Tiradentes (“Pivô da independência nacional”) José do Patrocínio (“Negro vendido”). Na realidade Oswald teve o propósito de reescrever suscinta e fragmentariamente a história, a partir de um pequeníssimo dicionário de bolso. Para este fim, começou o texto por Caim – “o primeiro burguês” – e fechou o círculo concluindo com o Proletário – “quem se revolta afinal e desencadeia no mundo a revolução que o fará coveiro e herdeiro da burguesia”. Oswald buscou nessa seleção exemplos de atitudes e de lutadores em prol da melhoria social da humanidade. Traçou os precursores, recortando trechos sobre a justiça social de autoria de membros da Igreja (São Clemente de Alexandria, Santo Agostinho), de escritores (Aristófanes, Shelley), etc. Percorreu em sentido inverso, garimpando ao longo da história as personalidades que inspiraram e apoiaram o surgimento da divisão de classes, da exploração do trabalhador e do homem simples. Nesse aspecto Oswald colocou a religião em lugar de destaque na opressão das massas populares, como vinha fazendo desde os tempos da Antropofagia modernista.

Mesmo se não houvesse uma data precisa em um dos manuscritos que compõem o corpus desse Dicionário, bastaria examinarmos o desfile de nomes e a sua definição para situarmos historicamente essa obra. A série de líderes comunistas e sobretudo o verbete Stalin (“Ponte de aço conduzindo a humanidade ao futuro”) é um bom índice de época. O Dicionário é uma obra comtemporânea à produção mais engajada do escritor, isto é das peças O rei da vela e O homem e o cavalo. Época de compromisso político partidário, quando Oswald se empenhava por uma mudança radical da sociedade. Se a participação do escritor na luta política não agradou a seus companheiros de partido, tão pouco essa convivência foi satisfatória em termos de aprimoramento ou avanço de suas propostas estéticas, se compararmos sua produção escrita na década de 20, sobretudo a dupla Miramar / Serafim com A escada e as duas peças citadas. No Dicionário de Bolso, o desequilíbrio se evidencia justamente nas interferências caracterizadas pela impostação séria, didática e militante. No geral, o tom do discurso é bem humorado marcadamente nas passagens mais sucintas, onde predomina a vontade de elaboração da linguagem, retomando a estratégia modernista inclusive a da Revista de Antropofagia de adotar o viés do riso com o intuito de questionar a realidade e discutir problemas sérios.

A idéia dessa obra é imediatamente posterior à Antropofagia, haja visto a recuperação de fragmentos incorporados à revista (Vieira, Joseph de Maistre, etc.). O verbete Vieira foi transposto quase que literalmente do Manifesto Antropófago. Outros parentescos com a produção de vanguarda, além da preferência pelo discurso citacional e aforístico, podem ser traçados. Dentro do projeto de contribuir para reinstaurar uma nova sociedade com bases mais justas, a postura irreverente, iconoclasta e bem humorada das páginas da revista impulsionou mais esta derrubada de mitos, que enformaram a civilização burguesa e marcaram o segundo tempo das inovações modernistas: sem esquecer o estético dando maior ênfase às questões ideológicas e sobretudo às discussões nacionais em pauta no momento. O alvo das estocadas oswaldianas nesse período de militância no Partido Comunista foi obviamente o sistema capitalista. Daí essa tentativa de dicionário na tradição de um Voltaire (Oswald definiu também alguns nomes – José, Moisés, Pedro, Salomão – encontrados no Dicionário Filosófico) de um Ambroise Bierce que no Dicionário do Diabo (The Cynic´s Word Book) critica os costumes contemporâneos, através de uma forma especial de humor negro e de definições aforísticas e epigramáticas. Por isso, afora os valores culturais burgueses a investida principal se deu contra a propriedade privada, mola propulsora de todos os desequilíbrios sociais e tema recorrente na obra de Oswald, a partir da Antropofagia. Evidentemente que os polos sustentadores do sistema vigente – a igreja e a política internacional – também não escaparam das pontas das flechadas do antropófago. E para fundamentar sua crítica, há uma seleção datada, diversificada de nomes ligados a esses setores, ao lado de uma gama de filósofos e para nossa surpresa alguns poucos literatos.

No prefácio-manifesto escrito em 1933 para o romance Serafim Ponte Grande (concluído em 1928) Oswald sublinhou os traços anarquistas de sua personalidade: “Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo”. As tiradas sarcásticas em cima da burguesia nacional no romance, – “nosso herói tende ao anarquismo enrugado” – aparecem no Dicionário em questão ampliadamente, dirigida ao sistema capitalista, aos seus sequazes e propagandistas. No dicionário, a ausência dos anarquistas mais ortodoxos foi compensada por uma gama de utopistas com quem Oswald sempre dialogou: Thomas More, Saint-Simon, Fourrier, Giordano Bruno, Marx. Apenas um representante do anarco-individualismo de muitas afinidades com o escritor: Max Stirner – “o pai moderno do anarquismo”. Os pensadores anarquistas revelaram ao modernista a possibilidade de aliar a aspiração por um ideal mais humano com sua pesquisa pela liberdade de forma e estilo. Além disso, Oswald se identificou com as manifestações libertárias da mesma forma que as vanguardas, idealizando uma arte símbolo do dinamismo e do poder criador de cada sociedade.

O humor e a agressão verbal aproximam Oswald dicionarista de outros entusiastas do pensamento libertário: os surrealistas. Inclusive a trajetória política de aproximação é idêntico. Os dois líderes da vanguarda artística de seus países, Breton e Oswald, tiveram uma simpatia inicial para com os anarquistas, depois filiaram-se ao Partido Comunista, em seguida romperam com o PC. Todavia permaneceram em ambos os vestígios da linguagem libertária. Basta examinarmos os “Billets surréalistes” do jornal Libertaire (1951-1953) e os escritos antropofágicos da década de 40. Oswald costumava citar uma passagem célebre do Manifesto do Surrealismo (1924) – “A simples palavra liberdade é tudo o que me exalta ainda” – e era exatamente a busca apaixonada da liberdade o elan impulsionador das ações do surrealista Breton e do antropófago Oswald. E “liberdade absoluta sem limites” foi também a mola mestra da filosofia libertária. Muito provavelmente nas páginas extraviadas desse Dicionário houvesse um verbete também dedicado a algum surrealista: Péret ou Breton, que como Oswald, eram otimistas, cheios de esperança na eclosão de um mundo livre e harmonioso: uma nova idade humana ou o matriarcado de Pindorama.

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Os dentes do dragão Oswald

“Nada de revolução: o papel impresso é mais forte que as metralhadoras” Oswald de Andrade

Reunir em livro entrevistas de escritores famosos não é novidade. Na história da literatura ocidental temos exemplos pioneiros e marcantes desse tipo de publicação. Modernamente sobressai a reunião de entrevistas de conhecidos escritores à Paris Review, organizada por Malcolm Cowley, com tradução brasileira; O Movimento Literário, editado em 1902 por João do Rio, é bibliografia obrigatória para quem deseja conhecer a vida cultural brasileira do fim do século passado e dos primeiros anos deste século, a partir de depoimentos de vários intelectuais atuantes. Com a divulgação das entrevistas de Oswald de Andrade, um dos expoentes da vanguarda literária de 22, a história do nosso movimento modernista se enriquece.

A mitologia oswaldiana tem-se alimentado de muita informação vaga e deturpada sobre as atividades do escritor, desde o começo de sua carreira como jornalista e diretor de O Pirralho até l954, ano de sua morte. Portanto, para os jovens leitores de Oswald, a publicação desses depoimentos é bastante oportuna, na medida em que os textos escolhidos retratam o envolvimento do escritor no cenário cultural brasileiro; oferecem um panorama de suas idéias em torno dos assuntos mais palpitantes da época; revelam o interesse da imprensa da época pela obra do autor de Miramar e por fim mostram a disposição dos entrevistadores de empreender revisões do movimento modernista.

O leque dos temas tratados e o espaço de tempo dos textos recolhidos cobrem uma faixa muito ampla. A seleção principia em l924 até a ultima entrevista realizada poucos dias antes da morte do poeta. Um verdadeiro mural narrando a trajetória literária de Oswald, compraendendo o período de apogeu, – a chamada fase do café, quando na sua fazenda Santa Tereza do Alto “fazia um corcunda preto e ritual servir a Segall e Jenny o leite espumoso de uma jersey, com cognac velho, trazido pessoalmente de Bordeuax, em frente ao terraço senhorial da minha fazenda”- até o tempo de ostracismo, época em que os jornais mais importantes recusavam os seus artigos; ou melhor final da década de 40 e início dos anos 50, no momento em que, não tinha fãs e distribuia autógrafos somente “aos pregos e aos bancos”, como o próprio Oswald lembrava.

A variedade dos depoimentos acompanha a mudança de interesse do escritor e ao mesmo tempo dá uma idéia do panorama histórico, político e literário do país. Naqueles da década de 20, as questões giravam em torno do Modernismo, da Semana de 22, do intercâmbio com a Vanguarda européia sobretudo com a França. Neste aspecto é bom atentar para os canais dessa permuta de idéias, observando os artistas e correntes sobre os quais Oswald tecia considerações e com quem mantinha contato nas suas viagens ao exterior. De 30 a 40 prevalecia a discussão sobre política, as fofocas em volta da política nacional; a história de sua ligação com o Partido Comunista e o posterior afastamento, com lances de ressentimento em relação à opção feita pela cúpula do partido de romper com a burguesia progressista.

Oswald reagiu virulentamente contra as duas linhas básicas do Partido em diferentes momentos: a aliança com Getúlio e a tendência obreirista calcada no desprezo pela inteligência e na luta contra a cultura. Estes pontos de discordância entre o PC e Oswald tornaram as relações conflituosas: o escritor via na aliança da burguesia progressista com o operariado (Aliança Nacional Libertadora) o caminho revolucionário para o Brasil, mas para Oswald a CNOP (Comissão Nacional de Organização Proletária) e Prestes foram incapazes de aproveitar a conjuntura entre os comícios do Rio (São Januário) e o de São Paulo (Pacaembu, em l945). Por outro lado, Oswald discordava do tratamento dado aos escritores e aos artistas pela direção do partido, que não “teve sensibilidade para aproveitar o potencial da contribuição de renomados intelectuais” ( Caio Prado Jr., Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade ) na luta pela criação de uma sociedade brasileira mais justa: “os comunistas não deixaram passar o sangue vitalizador da inteligência e da cultura pelas suas malhas partidárias”; não permitiram aos intelectuais oferecer ao partido as suas diferentes contribuições.

No campo das matrizes reconhecidas do Modernismo, Machado de Assis e Euclides da Cunha foram responsabilizados por terem introduzidos na literatua moderna a “aventura íntima e a pesquisa da terra”. Em três décadas de depoimento, Oswald confirmou o nome de Monteiro Lobato como o grande pré-modernista com sua prosa nova e limpa e insistiu no papel de “fundadores da literatura moderna nacional” exercido por Machado e Euclides, consolidando as duas linhas mestras de nossas letras – o campo e a cidade, “temas essenciais do Brasil”. Constante também foi sua resistência à nova literatura nordestina que interrompeu, no seu entender, por um bom período, a especulação literária. Do ponto de vista internacional, rastreou as correntes estéticas européias de um ângulo muito pessoal, listando apenas os intelectuais mais próximos ou com os quais manteve contato: Valery Larbaud, Cocteau, Jules Romains, Satie. Não citou nenhum nome ligado ao Dada e ao Surrealismo nem à vanguarda italiana, que representasse a tendência mais radical de renovação estética. Destacou naquele momento quatro correntes dentro da modernidade parisiense: l. Jules Romains, Duhamel, Vildrac; 2. Proust, Giraudoux, Morand; 3. Cocteau, Radiguet; 4. Apollinaire, Cendrars, Max Jacob. Reconhecia nesses grupos o incentivo à onda de nacionalismo que eclodiu junto com o nosso Modernismo: uma pesquisa intensa de conhecimento entusiasmado do Brasil e de consolidação de uma língua brasileira, para por fim na “invertebralidade nacional, compenetrada do espírito dos nossos dias”, argumentava Oswald. Essas avaliações literárias surpreendem. Sobre sua própria obra por exemplo Oswald destoa de toda a crítica, elegendo o Marco Zero como a grande obra da e de maturidade.

Para desencanto daqueles que o consideravam apenas o “Clown” da burguesia paulista, vamos encontrá-lo defendendo a importância do trabalho sério:”Passamos do tempo em que a pura intuição fazia um artista. Hoje em dia, o estudo possui uma importância fundamental”. Por sinal, a sua idéia da relação entre poesia e público está muito ligada à preocupação com o aprimoramento espiritual do homem. Para Oswald a poesia nunca será compreendida pelo grande público a não ser através da análise, pois, a compreensão é problema de sensibilidade e cultura.

O espaço do jornal, por sua própria natureza, algumas vezes não permitia o aprofundamento maior das questões discutidas, uma vez que o entrevistado era convidado a se pronunciar de improviso sobre os mais variados assuntos. Oswald discutiu os temas do momento, tratando-os de maneira engraçada e irônica. Outras vezes as entrevistas respondidas por escrito ofereceram uma visão mais trabalhada e inédita para os seus leitores hoje. É o caso dos depoimentos apresentados por coincidência a dois escritores: Paulo Mendes Campos e Edgard Cavalheiro. A entrevista a Paulo Mendes Campos, comemorando os 40 anos de literatura de Oswald, é uma espécie de revisão das leituras que marcaram a sua formação literária de um modo geral. Aproveitou para abordar temas mais complexos, gerais e expressar seu ceticismo: em relação ao destino da civilização ocidental, “onde triunfam a filosofia do recorde e a moral da tolerância e da chantagem”; sobre o atrazo do Brasil – “crise de reflexo” – e finalmente reafirmar a responsabilidade e a missão revolucionária da elite intelectual. Uma das obsessões nesses depoimentos – a situação do escritor – provavelmente refletia não apenas o quadro geral, mas o seu caso particular de desamparo, sem condições de sobreviver com os rendimentos da profissão, obrigado a exercer muitas atividades diferentes: “O escritor no Brasil é um pobre diabo (…) as dificuldades são tremendas: ou ele tem de se vender, se isolar ou sorrir…” Nesse sentido, o título geral de suas Memórias é bastante sugestivo – Um homem sem profissão -, lembrando na ocasião: ” no Brasil ser escritor é não ter profissão. Foi o que me aconteceu”. Não media palavras para fazer críticas, daí o relacionamento nada harmonioso com os colegas, sobretudo os escritores considerados por Oswald menos interessantes. No meio da mediocridade e da picaretagem tinha esperança na”Vitamina-Universidade” e via com simpatia a atividade exercida pela Universidade, depositando esperança no trabalho dos jovens. Não foi a primeira vez que Oswald se referiu à Universidade de maneira carinhosa e positiva. Aliás sempre sonhou em poder desfrutar do convívio acadêmico. Defendeu várias teses na Usp sem obter sucesso. Em l945 – O sentido da nacionalidade no Caramuru e no Uraguai” e A Arcádia e a Inconfidência, ambas apresentadas à Cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia da USP; a outra defendida na cadeira de Filosofia da mesma Universidade – A crise da filosofia messiânica. Pouco antes de morrer, já bem adoentado, acalentava novamente seu velho sonho, desta vez fora de seu país. Fazia projetos e elaborava o Roteiro de Upsala, um vasto programa para um curso de estudos brasileiros, planejado para a Univerisidade de Upsala e para a Escola Superior de Estocolmo. Por intermédio de seu amigo e antigo companheiro da garçonniere da Líbero Badaró, Vicente Rao, Oswald foi convidado também para dar um curso em Genebra. Em conversa, sua filha Antonieta Marília relembrou o alento que estes convites proporcionaram ao velho escritor, doente e esquecido.

Mas o entusiasmo pela função da elite intelectual se transforma de um texto para outro subitamente em ceticismo, descrença diante de manifestações de incompetência de um “bando de ignorantes”. Pro vavelmente influiu nessas atitudes do escritor o ressentimento pessoal, resultado talvez do ostracismo a que foi submetido depois da década de 20: “escritores não me levam a sério, nem sequer me consideram também escritor”.

No decorrer desta antologia o leitor terá surpresas com as idéias defendidas, com os nomes citados e com a diversidade temática. Uma das novidades é o nome de Gustavo Corção duramente criticado por Oswald inúmeras vezes, e recuperado na galeria dos autores esquecidos. Embora Oswald discordasse ideologicamente do autor de As fronteiras da técnica, considerava seu romance a grande realização brasileira no gênero. Não é sem razão que na biblioteca de seu filho Nonê, cheia de livros presenteados por Oswald, encontramos Lição de Abismo de Gustavo Corção com uma dedicatória bastante expressiva: “Para Nonê essa lição de Vida” . Na literatura brasileira contemporânea apontava a “existência de três gênios no Brasil”, três grandes promessas: Oliveira Bastos na crítica; Luci Teixeira na narrativa e Ferreira Gullar na poesia. O pós-modernismo, enquanto movimento sistemático de idéias e estética foi muito criticado: “foi a polêmica contra nós de 22”. Nas análises que empreendia sobre os movimentos contemporâneos, procurava traçar correspondência direta com o seu tempo – o Modernismo. O iniciante movimento do Concretismo, na época, foi erroneamente visto como incerto e como uma variante do Modernismo. Na hora de apontar a personalidade literária mais fascinante também escolheu nas fileiras modernistas – Mário de Andrade – e no rol de nomes dissonantes em relação à vida cultural da época: João do Rio e Emilio de Meneses.

Como solução para os descaminhos da vida cultural, defendia ardorosamente o movimento do qual foi um dos líderes, reservando especial atenção para as correntes Pau brasil e Antropofagia. Com a primeira declarava ter pretendido o renascimento do Brasil e a verdadeira poesia nacional, recuperando elementos desprezados da nossa lírica; no período do pau brasil, Oswald denunciava o intelectualismo falsificado, postiço, imperando a confusão de idéias importadas; com a Antropofagia pretendeu instaurar uma revolução de princípios, de roteiro, de identificação. Ambos projetos nacionalistas criados para recuperar o país da “fadiga intelectual” e alternativa para o “banho de estupidez” em que mergulhou a nossa “realidade mental”. Num instante de irritação um desabafo: “A literatura brasileira não conseguiu projeção mundial porque não presta”.

Os amigos do escritor testemunham sobre a agitação da sua vida pessoal. No período de vacas gordas o tempo era de festa, de surpresas, o grande público todavia desconhece o outro lado da vida de Oswald, crivado de dificuldades econômicas – na fase de isolamento que marcou o final da sua vida. É bom lembrar que depois da crise de 29, foi obrigado a recorrer à fortuna deixada pelo pai, concentrada particularmente em imóveis na grande São Paulo, na década de 50, com a doença, a situação se agravou, obrigando-o a desfazer de preciosos objetos cuja posse representava uma ligação afetiva e cultural. Numa folha de papel anotada a mão por Oswald conhecemos a relação exata da sua coleção estrangeira de objetos de arte: 2 Léger, óleo e aquarela com dedicatória; 3 Chirico, óleo; 2 Picasso, guache e aquarela; 1 Chagall, desenho; 1 Miró, têmpera; 1 Delaunay, litografia com dedicatória; 1 Archipenko, óleo; 1 Laurens, desenho; 1 Severini, óleo; 1 Picabia, desenho. Muitos desses objetos foram deixados como garantia de dívidas, de títulos, levantados por Oswald, segundo nos informa o rascunho manuscrito de uma declaração que foi obrigado a fazer com objetivo de dispor do seu guache de Picasso (em azul e preto) para fins de avaliação por especialistas. Pretendia vender o quadro para o MAM do Rio, incluisve tomou várias iniciativas nesse sentido, repetidas vezes escrevia a Paulo e a Niomar Bittencourt, proprietários do Correio da Manhã e fundadores do museu carioca. Esses momentos de crise, Oswald os enfrentava com o humor de sempre, alternando com demonstrações de ressentimento e mágoa. Uma travessia difícil facilitada e encorajada pelo seu filho mais velho, Nonê, a quem Oswald agradeceu de público a sua dívida: “Foi graças a meu filho, Oswald de Andrade Filho, que consegui suportar tudo, foi-me possível sobreviver”.

O discurso dos entrevistadores revela a curiosidade pela figura humana tão polêmica do escritor Oswald de Andrade; o interesse em se aproximar do romancista com vistas a um balanço do movimento modernista, da literatura e da cultura brasileiras contemporâneas. Transparece nas perguntas dos jornalistas o desejo de evidenciar a discrepância e o inusitado das idéias do entrevistado, principalmente sobre esses assuntos.

Esses bate-papos publicados pelos variados periódicos do país mantido de maneira amena e pacífica, com o correr dos anos se transformaram em ataques pessoais a personalidades da vida cultural ou se limitaram a revidar outros ataques. Muitos desses textos têm um aspecto de balanço e de retrospectiva, sobretudo as entrevistas no final da vida do escritor, resultado natural de momentos de desabafo e cansaço.

A personalidade mutável e complexa desse artista se revela inteira nessas conversas informais. Permanece no final da leitura de todos esses textos uma impressão do espírito generoso e amável, que, sem rancor, prontamente revia suas posições anteriores acerca de personalidades importantes da nossa cultura, como foi em relação a Gustavo Corção, ao antigo companheiro de partido com quem Oswald rompera em l945 Jorge Amado – “mestre inconfundível da literatura brasileira, o sucessor de Castro Alves”; e a Cassiano Ricardo – “o maior poeta do Brasil” e que pertencia ao grupo verde amarelista, adversário modernista de Oswald. Os dois colegas em vários momentos foram duramente agredidos pela contundência verbal oswaldiana no calor de discussões, e em seguida carinhosamente elogiados.

Confirmam-se nesses debates “à queima roupa” além da personalidade irriquieta, a veia satírica e a crítica mordaz do autor de Serafim. Desvendam-se facetas desconhecidas desta personalidade e consolida a imagem do intelectual corajoso, que não gostava de posições “mornas”, sempre pronto a manifestar sua opinião. Enfim reconstitui-se o percurso do escritor em diferentes fases, obtendo-se um desenho do desenvolvimento dos seus projetos de ficcionista, poeta e ensaista.

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Do órfico e mais cogitações

O conjunto de textos, boa parte inédita, apresentado neste volume, é mais abrangente que a coletânea Ponta de Lança, organizada pelo escritor em 1945, espelhando com precisão a sua atividade crítica nos anos 40. Aqui, a faixa temática e cronológica alarga-se, trazendo à tona também uma boa quantidade de trabalhos daquela época sobre assuntos variados.

A incansável birra de Oswald em relação à artificialidade da retórica, não arrefeceu a sua paixão pela oratória, onde se exercitava com muita eloqüência. Portanto, não é de estranhar que neste livro predominem as conferências ou palestras feitas para o grande público, montadas numa linguagem simples, em tom didático, às vezes sem muito aprofundamento, mas cheia de humor. Apesar do aspecto dispersivo no campo dos conceitos e exemplos emitidos, permanecem nos textos escolhidos o brilhantismo das opiniões e o gosto pelo polêmico.

As diferentes incursões de Oswald como político, como agitador cultural, como crítico de arte e como literato revelam visão de mundo particular, originalidade de pontos de vista e compromisso com o seu tempo. Na montagem desta antologia, o critério não foi rígido. Procurei exemplos na riquíssima atuação oswaldiana, na certeza de que muitos dos textos dispersos ou inéditos interessassem ao leitor comum e ao estudioso do Modernismo ou revelassem mais uma faceta

de seu lado intelectual. Muita coisa não foi considerada propositalmente, sobretudo alguns estudos de cunho político-partidário, concebidos durante a fase de militância, por serem enfadonhos e completamente desinteressantes. Hoje sobrevivem exclusivamente como curiosidade e do meu modo de ver, mesmo em se tratando de um volume da obra completa, não valeria a pena publicar qualquer coisa somente pelo seu ineditismo.

Dispus cronologicamente o material, considerando o assunto, em quatro grandes eixos: artes, literatura, filosofia e projetos. No âmbito das artes, recuperei o citadíssmo e muito pouco lido “Em Prol de uma Pintura Nacional”, de 1915, em que Oswald questionou a obcessão dos nossos artistas com a paisagem estrangeira. “Elogio da Pintura Infeliz” é um passeio através de séculos de pintura pinçando as respostas dos pintores às mudanças do mundo enfatizando as diferentes propostas, na maioria das vezes interpretadas como marcos precursores e até transformadores do cenário plástico ocidental. E numa postura adequada ao momento político propôs o alinhamento das artes plásticas no projeto de renovação do mundo, em pauta na ocasião. Na mesma linha, “O Burguês Infeliz Criador de Pintura” comentou o isolamento social do artista para manter sua independência, na medida em que considerou a história da pintura do Ocidente intimamente ligada ao desenvolvimento da pequena burguesia.

No eixo literário visualizam-se algumas áreas de preferência: poesia, Modernismo e a produção do escritor. Sobre poesia, especificamente, abordou o assunto na saudação a Pablo Neruda, em visita ao Brasil. Era 1945, Oswald permanecia ligado ao Partido Comunista, mas andava desapontado com a politicagem. Lembrou a natureza da poesia ao longo dos tempos – “instrumento de revolta, de oposição e de queixa”. Segundo ele idéia semelhante à definição tradicional de comunismo. O discurso foi curto, cheio de afirmações equivocadas, ingenuamente utópicas, marcadas pela emoção. Ainda acreditava que o poeta, aliado ao trabalhador, deveria ser o guia da humanidade. Nessa época sustentava posições dogmáticas – “A cultura só tem um destino: unificar-se como expressão do homem que trabalha” – mais tarde revistas, assim que procedeu seu desligamento da militância partidária.

“Novas Dimensões da Poesia” possivelmente foi uma palestra proferida dentro de um ciclo de programações do Clube de Poesia. Oswald rastreou a evolução da lírica e as mudanças pelas quais passou; insistiu na defesa da poesia moderna, depois de uma rápida retrospectiva histórica através de pronunciamentos de grandes poetas críticos: Eliot, Mallarmé, Baudelaire, etc. E deu um aviso aos novos poetas: “O retorno à forma não extingue os fogaréus do acaso histórico que vivemos”. Não via motivos para se descartar as conquistas da poesia do Modernismo, que a chamada geração de 45 insistia em desmerecer. Foi uma posição isolada, considerada conservadora e ultrapassada por Péricles Eugenio da Silva Ramos, Geraldo Vidigal, Domingos Carvalho da Silva, dentre outros, que propunham a recuperação da seriedade temática e do esmero formal no artesanato poético.

No agradecimento pela homenagem recebida ao completar 60 anos, reconstruiu as peculiaridades estéticas dos poetas de 22: “Nosso problema central foi a tensão entre o coloquial e a voragem. Entre o prosaico e o lírico, o polido e o arlequinal. Éramos a tradução da cidade. E por isso, como ela, fazíamos a escalada e o recorde, limpando as janelas da vida.” Na realidade Oswald também sutilmente mandava um recado aos companheiros de Modernismo que não embarcaram na sua fúria renovadora, no tempo do Pau Brasil. Sérgio Milliet, na saudação ao homenageado, fez o mea culpa em nome dos colegas por não ter dado o real valor ao trabalho de Oswald: “Confessemos que era difícil ao letrado brasileiro, que se abeberava na sub-literatura do neo-parnasianismo, entender essa poesia, toda de extremo requinte, de muito pudor e emoção, tudo escondido sob a caricatura da piada, porque não era propriamente a piada que você usava, mas a caricatura dela.”

Alguns textos importantes, anteriores à Semana, ajudam a mapear a evolução do pensamento crítico oswaldiano. O artigo sobre Anita Malfatti, o discurso do Trianon e “O Meu Poeta Futurista”, que já entrou para a história pelo fato de ter lançado Mário de Andrade poeta, publicados por Mário da Silva Brito, na sua sempre atual História do Modernismo merecem ser incluídos numa obra completa. Entre nós, as reflexões mais interessantes sobre o movimento da vanguarda italiana aparecem tardiamente em 1921 e 1922, embora a grande imprensa, já em 1909, comentasse o teor radical de suas propostas e em 1911 tenha surgido na Bahia uma edição com a tradução dos manifestos futuristas. O artigo “O futurismo tem tendências clássicas” mostrou em que medida essa renovação européia servia de modelo aos jovens escritores paulistas.

O restante dos artigos fazem a história e ressaltam a importância do movimento de renovação estética do qual foi líder. “Modernismo” e “Notas para o Meu Diário Confessional” contam o surgimento e a consolidação das idéias de 22. Ao mesmo tempo, sem parcialismos, definem o papel desempenhado por cada uma das figuras modernistas mais representativas, como foi o caso de Graça Aranha e nomeiam os financiadores da festa: “Num paradoxo muito peculiar a São Paulo, quem prestigiou a Semana revolucionária foi um grupo conservador. Dele faziam parte Samuel Ribeiro e René Thiolier… Como se vê, todos os movimentos se processam da mesma maneira, confusos, heteróclitos, desiguais. O que importa é o impulso e a meta.” Curiosamente Oswald constatou a existência de uma unidade política no movimento mesmo após o surgimento da devastadora Antropofagia: “Só com o vendaval político-econômico de 30 se definiram posições ideológicas.” Esqueceu a grande dissidência havida na segunda fase da Revista de Antropofagia, justamente por divergências na condução política do movimento. A “Carta para Afrânio Zuccoloto” e “Informe sobre o Modernismo” traçam os princípios que nortearam a nossa vanguarda. Oswald, familiarizado com a irreverência peculiar dos novos, sente-se à vontade para advertí-los uma vez que não admitia, sob qualquer pretexto, o desconhecimento da contribuição oferecida pela tradição (onde agora os modernistas estavam incluídos): “Nós fizemos paralelamente às gerações mais avançadas da Europa, todas as tarefas intelectuais que nos competiam.” Reviu o clima cultural do pré-Modernismo e recuperou a participação de seu velho amigo e editor, Monteiro Lobato, na afirmação da nossa modernidade, contribuindo com Jeca Tatu para a inserção de tema e expressão novos. Lamentava apenas que Lobato não tivesse adquirido a técnica e a crítica.

Uma conferência muito pouco conhecida representa as primeiras preocupações com o nacional que, a partir de 24, iria alicerçar o projeto modernista. “Esforço Intelectual do Brasil Contemporâneo”, panoramicamente montada com a intenção de divulgar para estrangeiros o processo de modernização pelo qual o Brasil vinha gradativamente passando, foi lida na Sorbonne, em maio de 1923. Esse texto, ao lado dos Manifestos “Pau Brasil” e Antropófago” bem como do antológico artigo “Em Prol de uma Pintura Nacional”, participaram da construção do ideal estético nacionalista de toda uma geração.

Elegeu algumas figuras representativas da literatura brasileira – Paulo Prado, Inglês de Sousa, Gregório de Mattos, Emílio de Menezes, Menotti del Picchia, Tristão de Athayde, etc. O texto sobre Paulo Prado, semelhante ao que foi publicado no Jornal do Comércio, por ocasião do lançamento do Retrato do Brasil em 1928, elogiou o estilo do ensaista – o único que gostaria de imitar – e atacou violentamente a tese principal do livro: “a repetição de todas as monstruosidades de julgamento do mundo ocidental sobre a América descoberta.” Alceu Amoroso Lima foi o crítico mais sério e impiedoso de Oswald no período da Antropofagia. As resenhas favoráveis ao autor de Miramar se limitaram a Os Condenados (1922), obra muito apreciada pelo líder católico. Em 1925, Oswald manteve uma polêmica com Tristão justificando não apenas a poesia Pau Brasil, mas todo um arsenal de idéias radicais de renovação inspiradas evidentemente na vanguarda artística européia, retrabalhadas com muita inventividade. A polêmica continuou em 1928 na Revista de Antropofagia com “Esquema ao Tristão.” “Imprecação a Tristão de Athayde” respondeu especificamente às possíveis influências européias detectadas pelo jornalista na Antropofagia de 1929. Na realidade o que preocupava o futuro líder católico era a ameaça da ilogicidade surrealista invadir os palcos tupiniquins, via primitivismo oswaldiano.

Oswald debruçou-se especificamente sobre as peculiaridades do seu estilo e da construção da sua obra. O prefácio Serafim, escrito em 1926, é muito mais apropriado ao espírito da narrativa do que aquele conhecido pelo público em 1933, quando foi obrigado a renegar o passado literário por imposição de compromissos partidários. Oswald explicou os postulados que surgiram para planejar o livro: “endossamos o mau gosto e recuperamos para a época o que os retardatários não tinham compreendido e difamavam.” “Bilhetinho a Paulo Emílio” deveria servir como prefácio às reedições da peça O Homem e o Cavalo. Revidou apaixonada e bem humoradamente o livro recém-publicado em vista das restrições à linguagem debochada feitas por Paulo Emílio. Em “Análise de dois Tipos de Ficcão” a partir dos personagens do romance cíclico “Marco Zero” – Xavier e Veva – Oswald estudou a obra à luz das conquistas da psicologia contemporânea, numa conferência dirigida a uma platéia específica de participantes de um congresso de psiquiatria.

No terreno político-filosófico, os textos cobrem um período que vai de 1930 a 1954. E a abrangência dos problemas tratados é sintoma da inquietação do escritor diante das mais variadas questões do seu país e dos percalços da vida moderna de um modo geral.

Até 1930, o Partido Republicano Paulista reinava como senhor absoluto da política nacional. Oswald esteve naturalmente envolvido ainda que não participasse ativamente da militância. Era ligado a muito de seus líderes: Washington Luís, Carlos de Campos, Júlio Prestes, Menotti del Picchia, etc. Defendeu veemente a atuação desse partido que desenvolveu em São Paulo “obra de liberdade, de progresso, de desenvolvimento maravilhoso, de ordem.”

Intrometeu-se em seara alheia, quando se fez crítico severo do modelo econômico – “País de Sobremesa”: “Não achamos ainda a estrutura nacional”. Arriscou a condenar os rumos do marxismo em confronto com as idéias libertárias de Proudhon, de quem tomou partido em “Velhos e Novos Livros”: “E´ no renascimento das idéias de Proudhon que procuram solução os muitos que se desiludiram da dogmática marxista.” Transformou-se em antropólogo ao elaborar o perfil dos imigrantes bem sucedidos na América (Vespúcio e Matarazzo), “os usurpadores” e para explicar a ameaça da destruição da cultura em países como o nosso em processo de civilização. O escritor revelou-se entusiasmado com o desbravamento do Estado, nas impressões da viagem ao noroeste de São Paulo. Acreditava que o Modernismo tenha sido o responsável pela contribuição do interior, aflorada na literatura a partir das transformações de 30. As ponderações do escritor sobre a importância do desenvolvimento do campo e seu papel na estabilidade social dos povos estão em voga e se revelam cada vez mais necessárias: “Por mais sombrio que seja o momento público que atravessamos – é no trabalho ligado à terra e criando uma consciência, que iremos encontrar as reservas do futuro.”

Oswald esteve sempre preocupado com o desenvolvimento do fascismo no Brasil, ainda quando o integralismo ensaiava seus passos nos primeiros anos da década de 30. “A Lição da Inconfidência” reforçou esse antigo temor, mesmo com o final do conflito do mundial em 1945.

Retomou a Antropofagia de 29, introduzindo na fermentação de seu pensamento filósofos dos mais diversos matizes: Heidegger, Kierkegaard, Marx, Nietzsche, Freud, etc. “O antropófago”, o texto mais longo dessa antologia, é um manuscrito inédito, apresentando varias datas de realização: de 1952 a 1953. Com o sub-título “O antropófago – sua marcha para a técnica, revolução e o progresso”, está estruturado em vários cap¡tulos que deveriam obedecer ao esquema traçado na folha 3 do caderno onde foi escrito: 1. Introdução e hipótese das latitudes; 2. A Gália de César e a Germânia de Tácito frente a Roma (pagã e a Roma convertida); 3 Cogitações sobre a miscigenação medieval; 4. Mundus novus; 5. Construção dialética do mundo moderno; 6. Ótica da humanidade presente; 7. Acertos e rumos. Sustenta a idéia de que o homem tende a esquematizar a sua propria natureza e a criar necessariamente um conflito entre o que ele é (natureza) e o que deseja ser (esquema idealista da própria natureza). Amplia as conclusões sobre a diferença de desenvolvimento técnico e histórico do homem nas diversas regiões do mundo. Na discussão da “teoria das latitudes”, esboçada também no depoimento a Edgard Cavalheiro – “Meu Testamento” -, divide a terra em três zonas, a faixa A, do Trópico de Câncer para o Norte até 60º; a zona B, confinando-se entre os dois Trópicos; a faixa E do Trópico de Capricôrnio, para o sul também 60º. Toma por base clima, uniformidade da produção, fatores que provocam, as diferenças iniciais entre as várias zonas. Por exemplo, a faixa A – Europa, Egito, parte do Canadá, Judéia, Estados Unidos e na Ásia a Mongólia e o Japão – concentra todo o progresso e o avanço tecnológico e a B, por reflexo, realiza em segunda escala o processo de desenvolvimento. A terceira faixa, também chamada de zona equatorial, objeto de atenção demorada do escritor, é caracterizada pela existência de um ócio milenar determinado pelo clima, pela terra e pela vegetação excessiva. Nesta zona o escritor constata o florescimento do regime matriarcal, cujo ideal consiste justamente no ócio.

Traça o itinerário do homem na direção do conhecimento. Retorna à análise sobre o comportamento da classe sacerdotal aproveitando-se, manipulando e deformando o “sentimento órfico” da sociedade e resistindo a todas as revoluções clericais. Isto porque a dimensão religiosa do homem sempre o levou a procurar novos cultos, assim foi no fim da era antiga (com a exaltação dos totemismos e dos numes), com o cristianismo, a promessa da parúsia atraiu milhares de fiéis e apaixonou as vítimas do poderio romano como mostrou em “A marcha das utopias”. Responsabiliza este sentimento órfico do homem pela transferência de cultos: a atitude das massas em torno de certas figuras teocráticas, Hitler, Mussolini, etc.

A partir do século XVIII marca o surgimento de uma nova era no Ocidente, livre dos preconceitos tradicionais da Igreja. Exatamente como Voltaire, que considerava a religião uma loucura ou uma “malandragem”, Oswald acha que o sentimento órfico corresponde à dimensão louca do homem, apontada pelo filósofo francês. Com o marxismo o homem atinge a maioridade, libertado do conceito de Deus, cuja morte Nietzsche anunciou. E no plano econômico destaca a importância da filosofia marxista ao desmascarar a “economia do haver”, expressão que considera mais apropriada para exprimir o sentido de transicão do comércio e da divisão arbitrária da sociedade em classes possuidoras e classes exploradas. Faz restrição ao projeto de Marx e Nietzsche por não ter valorizado o potencial primitivo, recalcado sob o domínio das elites burguesas, responsável pelo levante de massas que marca o início do século XX. Insiste na existência de uma fase de matriarcado vivida pela humanidade e estuda as características econômicas, o direito e a moral dos povos matriarcais: a economia do ser, o direito da guerra e a moral da liberdade.

Em “Construção dialética do mundo contemporâneo” reclama dos críticos um trabalho que coloque o cristianismo nas suas coordenadas históricas, geográficas e racistas. E alerta que a construção do mundo moderno depende do abandono de uma religião condicionada pela geografia ptolomaica, pela mística da escravatura e pelo confinamento.

O outro item, “Ótica panorâmica da humanidade presente”, o sexto do primeiro roteiro, tem os seus principais tópicos ressaltados: “formação do mundo patriarcal; a economia patriarcal; o direito patriarcal; a psicologia patriarcal; a moral patriarcal; a descoberta de um novo mundo; a reação e revolução em termos dialéticos; a marcha técnica (de Aristótels a Friedman); a indústria como invenção do diabo”. No final do caderno depara-se com outro esquema de trabalho, trazendo novo título – “Tratado de Antropofagia”: “histórico do problema; uma sociologia da miscigenação; o problema; as deformações vigentes do patriarcado – a religião (o grande órfico do Ocidente), a economia, a moral, a estética, a política, a lei e o direito; construção dialética do novo mundo matriarcal; o antropófago – sua marcha para o progresso, a técnica a revolucão; conclusão e manifesto”. Na última página um desabafo do poeta: “o homem não tem nada de herói corneliano, continua a trair, a mentir, a roubar, a ter medo, a amar e a matar. Como no primeiro dia da criação”.

O ensaio “O antropófago”, ao que parece, restou inacabado. Grande parte do texto foi ditada pelo escritor a sua mulher Maria Antonieta (Oswald estava convalescente), provavelmente não sofreu o retoque final. Faz parte do ambicioso projeto da fase de pós militância, com o objetivo de fornecer as diretrizes históricas e filosóficas da Antropofagia, e de revelar as fontes de inspiração da sua teoria. Entre o principal documento dos primeiros tempos – o “Manifesto Antropófago” – e os documentos pesquisados medeiam quase 25 anos. Da leitura de ambos, constata-se a permanência das idéias que impulsionaram o movimento de 1928.

“Do órfico e outras cogitações” encerrou melancolicamente este item, oferecendo agora as divagações de um escritor solitário e doente, ocupado somente com as reminiscências do passado a procura de consolo nas emoções, sustos e paixões dos dias infantis – “a idade de ouro de cada um.”

Uma das características mais forte da personalidade de Oswald foi a incessante disposição para planejar, colocar idéias no papel e sonhar com uma eventual realização. Esses planos e projetos iam desde a necessidade de sistematização do uso da propaganda governamental até a proposta de criação de um museu de artes plásticas em São Paulo na década de 30. Oswald não tinha preconceitos em relação a qualquer corrente política que estivesse no governo. O que contava era a disposição do governante em apoiar na prática os seus planos. Neste sentido apelou apara os amigos, para os interventores e para os políticos eleitos, etc. quase sempre sem obter êxito.

No estabelecimento dos textos levamos em conta as idiossincrasias estilísticas do escritor e consideramos também as condições em que alguns textos foram escritos ou originalmente divulgados. Corrigimos apenas o indispensável: a grafia dos nomes próprios, a pontuação e a concordância (quando absolutamente incorretas); atualizamos a ortografia e o emprego das maiúsculas. Conservamos ainda os sinais de dúvida deixados pelo escritor no texto: o ponto de interrogação entre parênteses ou a abreviatura de conferir (cf.), depois de alguma data que ele estivesse bem certo no momento.

Colaboraram na revisão inicial de alguns dos textos selecionados: Eneida Marques, Luciane Vaughn e Betty Heidemann. Esta última também cuidou da datilografia juntamente com Zezé Barela. A pesquisa foi realizada no Arquivo Público do Estado de São Paulo, na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no Centro de Documentação do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP e no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Agradeço a Irma Block e a Maria Itália Causin o auxílio bibliográfico; a Haroldo Maranhão a separata da ABDE, e a Waldemar Torres a saudação a Gilberto Freyre e “O divisor das águas modernistas”.

 

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Acerto de contas

Acerto de Contas

O pintor Oswald de Andrade Filho, nascido em 1914, filho mais velho de Oswald, acompanhou de perto a participação de seu pai na vida literária brasileira. Educado na Suíça, Nonê como era conhecido por amigos e famíliares, desde jovem conviveu com nomes importantes da arte moderna ocidental e de alguns deles tornou-se amigo: Satie, Brancusi, Delaunay, Camus e muitos outros. De volta ao Brasil (1929), em virtude da crise financeira, depois de passar por uma fase de adaptação à nova vida, resolveu estudar pintura, primeiro no Rio de Janeiro sob a orientação de Cândido Portinari e mais tarde em São Paulo com Anita Malfatti e Lasar Segall. Começou cedo sua participação no cenário artístico do país: nos Salões que marcaram os anos 30 e 40 e também nas Bienais, sem contar, é claro, a realização de inúmeras exposições individuais, intensificada a partir de 1954. Artista plástico, o instrumento de expressão preferido de Nonê eram as cores e as formas, mas à maneira oswaldiana (Um homem sem profissão), usou as palavras para montar o quadro intricado de suas raízes e de sua experiência passada. Queria entender a atitude esquisita da mãe ao ocultar a existência dos irmãos franceses e ao mesmo tempo pretendia homenagear estes parentes próximos jamais conhecidos; tentava desvendar as contradições e as artimanhas de uma vida conturbada, sobretudo a irrequieta personalidade de um pai que tão bem conhecera e por quem tinha um carinho imenso, transformando-o na personagem principal, ou melhor na grande estrela de Dias Seguintes e Outros Dias, título do manuscrito agora recuperado. Instalado modestamente num camarote de segunda classe do pequeno Augustus, embarca para Europa em 1965, coordenando uma viagem de estudos para suas alunas completarem o curso de História da Arte. Passados mais de dez anos da morte do pai, seu grande parceiro e amigo, Nonê aproveita para desenhar com pinceladas de emoção e espontaneidade um roteiro paralelo. Este tão rico quanto aquele, embora mais difícil e muito doído, uma vez que se trata de um percurso interior, em cuja rota vários mitos são arranhados. Aqui importa muito pouco a viagem física, trata-se de um itinerário pessoal, portanto, deflagrado por imagens e recordações provisoriamente esmaecidas e reavivadas a medida em que o homem maduro revisita lugares por onde esteve adolescente, quando era passageiro cativo da primeira classe de luxuosos navios. Excursões de estudo ou de férias pela Europa e pelo Oriente foram uma constante para o autor, quando jovem, sempre acompanhado do pai e da pintora Tarsila do Amaral. Viajar na vida e na obra do modernista Oswald de Andrade representava uma forma de sonhar, um meio de libertação. Os personagens dos seus romances, Miramar e Serafim, alter-ego do escritor, transformaram-se e amadureceram graças às aventuras vividas mundo a fora. O comandante do navio El Durasno, que transportava Serafim, seu secretário e “a humanidade liberada”, não pretendia atracar temendo interromper a desejada “revolução puramente moral” explodida a bordo: El Durasno só pára para comprar abacates nos cais tropicais. Dias seguintes e outros dias, da mesma forma, gira em torno de excursões imaginadas e realizadas no passado: paixões desses dois Oswald. Nesta seqüência de aventuras a principal delas vivida interiormente, o artista tenta libertar-se dos conflitos pessoais e familiares, acerta as contas com o pai famoso e com muitas personalidades hoje legendárias com quem conviveu: começando por Pagu (Patricia Galvão 1910-1962), passando pelos políticos comunistas companheiros de luta – João Mendonça Falcão, Jorge Amado, Luís Carlos Prestes, etc. Numa espécie de autobiografia fragmentária Nonê parece querer tomar posse de si mesmo. Isto porque até 1954, esteve inteiramente por conta de seu pai que o absorvia com seus negócios eternamente intricados para os quais o convocava como sócio ou avalista. A vida profissional e pessoal desorganizada do velho Oswald atingia sobremaneira o filho mais velho que quase não tinha tempo para si. O título do manuscrito, por sinal muito bem escolhido, sintetiza a ciranda interminável em que estava envolvido. A forte relação entre os dois levou Nonê a adotar o nome Oswald de Andrade Filho, para assinar suas obras. Era como se verdadeiramente assim o fosse, pois o autor do Serafim tentou repetir o gesto do pai (José Oswald Nogueira de Andrade), que, em 1890, o registrara também como José Oswald. Apenas encompridou o nome do seu primeiro filho acrescentando-lhe mais um prenome, Antônio. E assim ficou oficialmente sendo José Oswald Antônio de Andrade, sem o sobrenome francês da mãe, Henriette Denise Boufleurs. Não contente com isso, o velho antropófago deu-lhe também o mesmo apelido – Nonê – pelo qual seus pais e companheiros de infância o chamavam. Morto Oswald (1954), livre da pesada herança – dívidas e mais dívidas – é o momento da consolidação definitiva da liberdade ensaiada antes várias vezes (a ida para o Rio sozinho, em 1931, foi a primeira delas). Desligados dos compromissos com o pai, livre dos credores, poderia ter tempo para produzir seus quadros e investir na profissão. A incursão memorialística significa mais um gesto de libertação, tentativa de encerramento de uma etapa de vida. Por coincidência Dias Seguintes acaba de forma abrupta ao registrar o desencontro com a irmã francesa Simone, de cuja existência ficou sabendo quando tomou conhecimento do testamento da mãe. Conclui, por assim dizer, o ciclo de ligações afetivas conturbadas, incluindo a relação com a mãe com quem pouco conviveu. A matéria narrada desse manuscrito substancialmente são as lembranças das experiências que o escritor foi levado a viver. Ou seja, ele não escolheu atuar em todas essas peripécias, alegres e tristes, rememoradas no momento em que realizava uma viagem educativa, acompanhando jovens alunas, algumas delas possivelmente com a mesma idade que a do escritor em muitas passagens desse texto. O presente, a mulher, os filhos funcionam como pano de fundo, e não estão em questão, pois o acerto de contas é com o passado. Talvez seja por isso que a sua vida adulta e profissional não esteja contemplada aqui. Nesta viagem introspectiva o narrador não tem olhos para o novo que a paisagem visitada naquele momento lhe oferecia. Não se preocupa em narrar o que viu e sim aquilo que o liga ao passado ou a emoção de recordar. A câmera, através da qual enquadra paisagens, monumentos, museus, está aparelhada com a lente da saudade, com alguns filtros nostálgicos. E não poderia deixar de ser assim no que diz respeito às lembranças boas e fortes. As sequelas de um passado nada tranqüilo não lhe tiraram o bom humor. A epígrafe, Horas non numero nisi serena, encontrada pelo pintor gravada num relógio solar de uma velha mansão da Avenida Paulista, prenuncia o tom do relato. Os leitores, que embarcam nessa jornada fascinante, montada através duma ciranda de lembranças, com atores e datas misturando-se entre a Europa, o Oriente e o Brasil, vivenciam melhor personagens e fatos de um rico período da história de nossa cultura: tem acesso às divertidas excursões, às noitadas e aos debates modernistas, desvendam os bastidores da política nacional nas conturbadas décadas de 30 e 40 e além disso conhecem a vida e redescobrem a obra de um artista brasileiro importante que teve uma atuação bastante dinâmica. O livro de Nonê proporciona aos leitores jovens um contato humano mais direto com a figura controvertida e estranha de Oswald de Andrade: o cidadão comum com defeitos e qualidades; o pai carinhoso e desleixado; o político romântico; o intelectual engajado. Enfim, um depoimento importante em que mais uma vez se delineia a impressionante solidariedade de obra e de vida do líder modernista, recuperando fatos curiosos que interessam muito de perto ao historiador da literatura brasileira. É justamente esta fusão de traços da história cultural contemporânea com empenho memorialístico que torna sua escrita sedutora. Outros méritos Dias seguintes e outros dias coleciona. Oscila entre crônica de viagem, diário e autobiografia. É um relato envolvente, na sua maior parte estruturado em versos, intercalados com pequenos trechos em prosa e quatro cartas (uma delas em prosa). A linguagem comum pareceu imprópria a Nonê para exprimir sentimentos tão fortes e contrastantes e sintetizar uma existência única de vida. Na aparente confusão espaço-temporal, onde se alternam os períodos de fartura e a época de pobreza – o cenário aristocrático da Alameda Barão de Piracicaba e o infecto mundo boêmio da Rua da Lapa – o pintor busca angustiado o tom da escrita que devia ser maleável e variada como a sua experiência. Num estilo bastante despojado e agradável, manipula elementos e dados sofisticados com a técnica de um quadro da sua fase primitivista. Como é um texto inacabado, a linguagem adotada tem um ritmo desigual. Isto porque Nonê entrega-se à lembrança ou à emoção que a rememoração da experiência vivida ou experiência frustada proporciona-lhe. Algumas vezes tenta experimentar e brincar com a linguagem numa estratégia de camuflar ou amenizar o impacto do narrado, como o versinho de sabor joyciano de abertura do livro. O trabalho gráfico de ilustração, na realidade, funciona como uma espécie de segunda linguagem, enriquecendo bastante estas memórias. Diante da quantidade de textos espalhados em inúmeros cadernos, e como Nonê não conseguiu completar este livro de viagens, um só princípio presidiu a montagem final dessa obra: seguir à risca as anotações do seu autor para preservar a espontaneidade e singeleza de expressão. Procurou-se chegar a esta estrutura, fixando-se apenas no conjunto em que, ao que parece, foi elaborado por último. Desse bloco, a carta à Simone e os epitáfios aos dois irmãos tiveram uma única redação. A correspondência para sua mulher – núcleo gerador do livro -, as diferentes versões trabalhadas e retrabalhadas, inclusive as primeiras anotações feitas apressadamente nas viagens, até os últimos cadernos, tudo foi lido e relido, na intenção de se familiarizar com o espírito da obra, com o estilo do autor e buscar pistas para resolver vários problemas no texto inconcluso. No processo de fixação do texto, foi mantida quase que integralmente aquela redação final revista por Nonê. Em algumas passagens, optou-se por interferir no manuscrito. E esta intromissão dos organizadores aconteceu nos seguintes casos: correção dos trechos e frases citadas, como por exemplo as citações de textos de Oswald, no Corazon Nuevo de Lorca, no “Coco de Pagu” de Raul Bopp, e ainda nas citações em língua estrangeira; nos descuidos de grafia ou de linguagem mais graves. A pontuação foi corrigida apenas por exigência da clareza e com intuito de rever algum erro. Obdeceu-se ainda a indicação de final de estrofe e de página assinalada pelo autor. Foram recuperadas também as ilustrações dentre as infinitas sugestões deixadas e esboçadas por Nonê, ampliou-se a pesquisa visando à coleta de novos documentos de época relacionados com o trabalho gráfico idealizado por Oswald de Andrade Filho. A cronologia e a extensa bibliografia traçadas detalharão a sua trajetória no contexto cultural do país, informando sobre suas inúmeras atividades de pintor, crítico, professor de História da Arte e militante comunista nos anos 30; as notas servirão de mapa para o leitor situar personagens e fatos de época.

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